Programa XXIV - Duo Assad e Marcelo Kayath
Poucos artistas brasileiros podem se gabar de ter
uma carreira verdadeiramente internacional. Dois irmãos
nascidos no interior de São Paulo construíram de forma
gradual e a duras penas uma sólida carreira
internacional e são, hoje, unanimemente considerados o
maior duo de violões do mundo, dividindo o palco
regularmente com celebridades como YoYoMa e Gidon
Kremer: o Sérgio e Odair Assad.
BG música do Sérgio
A atividade do duo Assad emana do ambiente doméstico,
onde a música e o violão se confundem com os laços
afetivos: o pai, seu Jorge, é um ótimo violonista e
bandolinista de choro; a mãe, d. Ika, é uma respeitável
cantora, e a irmã mais jovem, Badi Assad, é uma
cantora/instrumentista de extraordinários recursos. Os
filhos e filhas de Sérgio e Odair também começam a se
profissionalizar na música. Nos anos 60, a família se
mudou para o Rio para que os irmãos pudessem estudar
com a célebre Adolfina Távora, que era professora dos
irmãos Abreu, que ouvimos num Programa anterior. Em
1973 eles ganharam o concurso de jovens solistas da
Sinfônica Brasileira e começaram a ocupar um espaço no
cenário musical do país. Compositores nacionalistas
começaram a escrever para eles e aquele a cujo nome
estão indissociavelmente ligados é Radamés
Gnatalli.
LP
Gnatalli: Corta-jaca, da suíte Retratos 4'32''
[desanúncio] Quando o duo começou sua
carreira nos anos 70, o ambiente musical no Brasil
ainda era muito sisudo e segmentado. Eu me lembro de um
conhecido pianista tocar algumas peças de Ernesto
Nazareth e dizer ao final: "deixe-me tocar agora um
pouco de Bach, para limpar o ambiente".
BG - Concerto de Gnatalli na fita
Sérgio Assad me contou que, ao entrar no curso superior
de música no Rio de Janeiro, parou de compor: a prática
de composição era totalmente voltada para a vanguarda
européia e tratava a música nacionalista como se ela
não existisse, o que o fez se sentir deslocado. Em SP,
não era diferente: quando os vi, pela primeira vez, em
1982, havia, claro, respeito pela perfeição e
musicalidade, mas ainda se ouvia comentários do tipo
"que pena que eles desperdiçam o talento com estas
musiquinhas".
BG sobe
O fato é que, já nos anos 70, eles estavam à frente dos
acontecimentos e buscavam desenvolver um conceito
sonoro próprio, que combinava o repertório tradicional,
compositores como Gnatalli e Marlos Nobre e arranjos
sofisticados de Piazzolla ou Gismonti, o que hoje
chamamos de cross-over. Nos últimos anos, a maioria dos
artistas clássicos tem feito cross-over de uma forma ou
de outra, seja por curiosidade ou por pressão
comercial. O duo Assad tem minimizado a barreira entre
o clássico e o instrumental popular, tratando um com os
métodos do outro, há 30 anos, por inclinação natural e
pelo respeito à prática do choro, da qual eles mesmos
emanaram. Esse jeito de tocar a um tempo brincalhão e
detalhado, essa leveza e swing, não é algo fabricado: é
o próprio código genético do duo Assad. O público
europeu percebeu isso logo nas primeiras apresentações
do duo e, a cada recital novos convites apareceram, até
que, no início dos anos 80, eles se viram forçados a
residir no exterior para atender à demanda por mais e
mais concertos.
BG sobe e fade
[desanuncio] Outro compositor bastante próximo
deles é Marlos Nobre. Suas obras para violão são do
mesmo escol de Villa-Lobos, com um vigor e ímpeto
controlados por uma técnica composicional de primeira
linha
LP Marlos Nobre
Nobre: 2o ciclo Nordestino, op.13 bis 4'20''
Batuque, praiana, carretilha, seca, xenhenhem
[desanúncio] onde ouvimos que eles são
capazes de evocar a atmosfera da caatinga nordestina,
sua aspereza e ritmos másculos com igual
eficiência.
BG
No início dos anos 80, quando o duo ainda não era
conhecido fora do Brasil, mostrei a um colega argentino
uma gravação que eles haviam feito de um arranjo de
Piazzolla. Ele me falou "não sei quem é, mas posso
assegurar que são argentinos". Claro que o duo gosta de
Piazzolla desde criancinha, mas Sérgio diz que, como os
contrastes dramáticos faltam à música brasileira,
Piazzolla preenche uma lacuna em seus Programas.
CD saga dos Migrantes
Piazzolla: Bandoneon, da suíte troileana 8'12'
[desanúncio e comentário] Fala-se muito que
swing é um talento natural, difícil de ser ensinado.
Talvez seja uma percepção aguçada para alguns elementos
da pronúncia musical, que não são normalmente
prioritários para músicos treinados exclusivamente na
música clássica.
BG
É uma percepção para o elemento coreográfico,
dinamogênico da música. A música latino-americana de
origem dançante tende a valorizar os contratempos;
todavia se forem pronunciados com muita ênfase e de
forma quadrada, medida com a régua, criam um efeito
pesado, paquidérmico.
BG
O duo Assad trata o ritmo com imenso desvelo: é uma
intricada combinação de pequenos acentos, pequenos
desvios da norma quadrática do ritmo e de controle da
articulação. A medida dos compassos é absolutamente
regular, entretanto, dentro deles, um ligeiro espichar
e contrair da distância entre as notas é feito de
maneira imprevisível.
BG
Um acento não é necessariamente um golpe na nota; um
contratempo pode ser levantado, "iluminado", por um
desvio do padrão de articulação. O duo Assad subverte o
quadrado rítmico inserindo algumas notas em staccatto,
ou seja, curtinhas, dentro de um padrão essencialmente
legato, contínuo. O efeito é ao mesmo tempo marcado e
leve, de grande complexidade auditiva e de uma graça
felina.
Fita
Piazzolla: Tango suíte, 3o. mov c.6'00''
[desanúncio] Piazzolla ficou estupefato ao ouvir o
duo Assad pela primeira vez e lhes dedicou esta suíte,
uma de suas melhores obras, que eles tocam com um
virtuosismo alucinante e com um formidável controle de
dinâmica na seção final.
Esta leveza e ritmo faceiro fazem deles intérpretes
ideais também da música barroca francesa. Esta minúcia
nas mínimas inflexões do fraseado e da ornamentação
cria um efeito de rendilhado, de textura complexa e
sofisticada, na música de Couperin.
CD Barroco
Couperin: Le Carrillon de Cythère 3'28''
[desanúncio] Sérgio Assad, ademais, é um
compositor de primeira linha e, felizmente, o duo cada
vez mais tem incluído suas obras em suas apresentações
pelo mundo afora. Um outro violonista brasileiro que
teve uma curta, mas extremamente bem-sucedida carreira
internacional nos anos 80, foi Marcelo Kayath.
BG
Nascido em 1964, ele foi aluno de Leo Soares e Jodacil
Damaceno no Rio de Janeiro, e ainda adolescente já
havia vencido os maiores concursos nacionais no Brasil.
Sua ascensão aos palcos internacionais foi meteórica:
em 1984, com apenas 20 anos e enquanto ainda cursava a
faculdade de engenharia, ele foi vencedor, num
intervalo de poucos meses, dos dois maiores concursos
internacionais de violão de então, o concurso de
Toronto, no Canadá, e o respeitado concurso da Radio
France, em Paris. Em poucos meses, ele se tornou um
convidado freqüente dos palcos internacionais e fez o
que considero uma das mais impressionantes estréias em
disco em toda a história do violão.
LP
Nobre: Prólogo e toccata op.65 5'45''
[desanúncio] Tudo que gosto de ouvir num violonista, Marcelo Kayath tem de sobra: uma sonoridade opulenta, portentosa, variada, um discurso rítmico vigoroso e direto, técnica imaculada, imaginação, poesia e rigor estilístico. Nesta obra de Albeniz, que até Segovia tocava com um certo desconforto, ele consegue não só fazer com que não nos demos conta das dificuldades, mas toca cada artéria das frases com uma voz própria e cria uma aura de sonho no acompanhamento ao mesmo tempo em que mantém uma robusta sustentação nos baixos.
CD Spain
Albeniz: Granada 4'45''
[desanúncio] Acho que o segredo de Marcelo Kayath é se ater ao essencial: nesta pequena peça de Barrios, escutem como ele pronuncia o ritmo com uma graça sem paralelo e nos dá a ilusão de três planos distintos de sonoridade. Isso tudo num andamento cômodo e sem o exibicionismo típico dos vencedores profissionais de concursos.
Cd Barrios e Ponce FX 2
Barrios: Danza Paraguaya no.3 2'15''
[desanúncio] O público muitas vezes tem a ilusão de que o estilo de vida de um concertista internacional é uma sucessão de eventos glamurosos e paparicação, mas poucos imaginam o que é a pressão de estar sempre em plena forma em longas turnês, que freqüentemente se resumem a teatros e quartos de hotel, espera em aeroportos e a solidão de se encontrar gente desconhecida diariamente, onde a música e o carinho do público são muitas vezes a única compensação. No início dos anos 90 Marcelo Kayath percebeu essa vida não era para ele e abandonou os palcos. Fez um MA em economia na Califórnia e hoje vive em São Paulo, onde é um bem-sucedido executivo no mercado financeiro. Na minha opinião, uma perda para o violão da mesma magnitude dos irmãos Abreu ou de Ida Presti. Mas ao menos podemos ouvir um registro de sua inteligência musical e nobreza de expressão nas 6 gravações que deixou, a maior parte delas de obras curtas de caráter romântico.
CD Barrios e Ponce FX11
Ponce: Preâmbulo e Allegro 4'25''
[desanúncio] Marcelo Kayath, bem como o Duo
Assad, Barbosa Lima, o duo Abreu e Turíbio Santos são a
ponta do iceberg, a face internacional da história de
amor do violão com o Brasil, que é o tema de nosso
próximo Programa.
Agradecimentos: Marcelo Kayath

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