A Arte do Violão

Programas idealizados e apresentados por Fábio Zanon

Programa XXIII - David Russell, Paul Galbraith, Raphaella Smits

Num documentário recente, o grande pianista e regente Daniel Baremboim faz um comentário bastante afiado ao comparar Alfred Cortot e Artur Rubinstein. Ele diz que o público muitas vezes não vê distinção entre a personalidade de um grande artista como algo incomum, o que é verdade, e algo anormal, o que não é necessariamente verdade. De fato, alguns intérpretes abordam a música sob o viés da anomalia, do conflituoso ou doentio, exagerando os aspectos depressivos e os contrastes inesperados de maneira excêntrica. Outros, como era o caso de Rubinstein, abordam a música de uma forma sadia, e sempre buscam organizar os conflitos do discurso musical mantendo um fio condutor, uma espinha, uma atitude resoluta. No violão, há um violonista escocês que é um modelo do segundo tipo de artista: David Russell

BG Vivaldi: Sonata R.46 Allegro 2´15
David Russell nasceu em Glasgow em 1953, mas passou boa parte de sua infância na ilha espanhola de Menorca. Depois de estudos com José Tomás, um assistente de Segovia, ele completou sua formação na Royal Academy of Music em Londres e passou vitorioso pelo moedor de carne dos concursos internacionais, com primeiros prêmios no concurso Tarrega em Benicasim e no concurso Segovia de Mallorca. Seus primeiros CDs foram algo tímidos, mas no início dos anos 80 ele lançou um CD de compositores esquecidos do séc.XIX que marcou época.

CD 19th Century Music FX 5
Mertz: Fantasie Hungroise 6´05

[desanúncio] Nesta obra vemos a aplicação mais doméstica, para o âmbito do violão, do estilo virtuosístico de Liszt e Thalberg então em voga. Aqui o potencial de Russell já está plenamente desabrochado: é uma sonoridade clara, bem timbrada e absolutamente imaculada, onde os ruídos das unhas da mão direita ou do atrito contra as cordas são praticamente eliminados, num grau de pureza técnica que não se ouvia praticamente desde o Duo Abreu nos anos 60. Não há sofrimento nem conflito: tudo é despachado de maneira franca, descomplicada, sem exageros, mas ao mesmo tempo com uma desenvoltura, propulsão e elegância que lhe são únicos.

BG Bach
Apesar de sua afinidade com o sentimental repertório original do séc. XIX, suas gravações mais impressionantes são as de música barroca. Ele adotou a técnica de ornamentos em cordas cruzadas, que já ouvimos no Programa sobre o duo Presti-Lagoya, mas com um método diferente. Seus trinados são executados com uma alternância constante dos 4 dedos ativos da mão direita, o que lhe dá um ganho de velocidade e de possibilidades de enunciação. Claro, o espaço entre duas cordas do violão é bem estreito, e obviamente é bem difícil encaixar os 4 dedos dentro de um espaço tão exíguo, mas Russell o faz com precisão milimétrica e produz versões cintilantes e equilibradas de Bach, Scarlatti e Haendel:

CD Baroque Music FX 6
Haendel: Passacaille 5´49

[desanúncio] Nesta obra em que muito do interesse está no acúmulo de tensão gerado pela aceleração dos elementos composicionais, Russell gradua o volume e o andamento de maneira admirável, investindo a música de Haendel com uma característica nobreza e pompa. Em obras do barroco francês, entretanto, a meticulosidade e exatidão criam um caráter meio coquete, totalmente apropriado.

CD Baroque Music II FX 1
Loeillet: Suite no 1 Allemande 3´26

[desanúncio] A partir destas gravações, Russell tornou-se uma figura muito querida no circuito do violão em todo o mundo. Em parte por força das circunstâncias, em parte por escolha pessoal, sua carreira não extrapolou os limites dos festivais e sociedades de violão, e preferiu se concentrar no seu prazer pessoal de tocar sem pressões de ordem comercial. Uma das críticas mais freqüentes a seu respeito é o repertório: ele tende a render melhor em música de segunda categoria, no repertório de salão do séc XIX, ou na música mais leve e sem maiores conseqüências do séc.XX. Eu não vejo problema nisso. O repertório de Russell encaixa com as aspirações e com o nível de cultura musical do vasto público de estudantes e amadores do violão, e ele consegue freqüentemente tornar muito deste repertório bastante apreciável e divertido. Ouçamos esta obra de Tarrega, de gosto mais que duvidoso, que ele despacha com elegância e humor.

[desanúncio] Além de ser um virtuose absolutamente inatacável, Russell é daquelas poucas pessoas iluminadas, acessíveis, bem humoradas mesmo depois de horas de espera em aeroportos, capazes de fazer qualquer pessoa se sentir especial com um par de frases, enfim, um verdadeiro príncipe. Isso faz de dele também um admirado professor, e a combinação destes fatores faz dele, hoje, talvez o violonista mais requisitado dos palcos de todo o mundo.

BG
A partir dos anos 90, ele mudou um pouco o formato de seus CDs e hoje, normalmente, ele se concentra em fazer panorâmicas de faixas específicas do repertório. Algumas destas leituras não são tão interessantes, devido a uma abordagem formulaica e a uma mesmice de fraseado, mas seu CD de obras de Barrios é bastante admirado. Sua leitura das obras de Agustín Barrios são bem diferentes do que o compositor faria, mas como Russell mesmo disse uma vez em um masterclass, "eu entendo que é normal, para este repertório, tocar de forma mais incandescente, mas, sabe... eu sou escocês, não está na minha natureza". A ausência de combustão é amplamente compensada pela naturalidade de seu fraseado e por seu tremolo perfeito.

Cd Barrios FX 1
Barrios: Un Sueno en la floresta 7´09

[desanúncio] Alguns intérpretes têm uma natureza mais dramática, dada a contrastes mais acentuados, tempestade e ímpeto. Russell é, essencialmente, um intérprete lírico, onde o mundo é visto um pouco através de lentes cor-de-rosa, como ouvimos neste Barrios. O que não quer dizer que ele não possa ter uma técnica de extraordinário brilhantismo, solidez e velocidade quando é necessário. Neste pouco conhecido concerto de Rodrigo, ele toca de forma tão flexível e relaxada que o ouvinte nem se dá conta da verdadeira punição técnica pela qual ele está passando.

CD Rodrigo FX 10
Rodrigo: concierto para uma fiesta - allegro moderato 6´48

[desanúncio] Os outros dois concertos de Rodrigo são mais que conhecidos, especialmente o concierto de Aranjuez, mas o concierto para uma fiesta, seu terceiro e talvez o melhor de todos, provavelmente ainda não se popularizou devido à natureza extrema de sua dificuldade técnica.
Uma outra intérprete de essência lírica, que chegou até a gravar dois discos em duo com David Russell, é a belga Raphaella Smits.

BG
Nascida em 1957, ela seguiu o padrão desta geração de violonistas ao completar seus estudos com José Tomás e a lançar sua carreira com o auxílio dos prêmios em concursos internacionais. Seguindo o que talvez seja um padrão no mundo do violão, ela também é uma pessoa encantadora, ponderada e acessível, e ensina no Conservatório de Antuérpia. Sempre voltada à faixa mais lírica do repertório, ela tem, recentemente, adotado a prática de instrumentos originais e gravado muito da esquecida música romântica original para violão com um instrumento de 7 cordas feito por Vicente Arias em 1899. Esta é uma de minhas gravações favoritas; superficialmente, sua realização é leve, sutil, sem extremos de expressão, mas numa escuta mais atenta e profunda vemos que isso é alimentado por um autêntico delírio artístico e intensidade emocional.

Cd Raphaella Smits FX 5
Manjon cuento de Amor 7´30

[desanúncio e comentário] Um outro artista escocês que merece a máxima atenção é Paul Galbraith.

BG
Nascido em Edimburgo em 1964, Galbraith é um dos violonistas de mais abrangente cultura musical em atividade, e um poderoso intelecto voltado às mais profundas associações musicais. Sua formação foi algo convencional, mas dada a drásticas guinadas. Ainda adolescente ele atraiu enorme atenção em dois importantes concursos musicais na Inglaterra, talvez os equivalentes do Prêmio Eldorado aqui no Brasil, e embarcou, talvez cedo demais, numa carreira internacional, marcada por algumas gravações algo convencionais. Percebendo que isso era uma barca furada, ele limitou seus compromissos e passou vários anos re-elaborando seus conceitos musicais sob a orientação do pianista grego George Hadjinikos. Ele re-emergiu anos depois com uma abordagem holística do fazer musical, com efeitos drásticos em sua técnica e até em seu instrumento.
BG sobe
No início dos anos 90, Galbraith já estava tocando com o violão numa posição totalmente vertical, usando um espigão à maneira do cello, o que, segundo ele, lhe permite total liberdade de ação para moldar a música com sua mão direita. Este espigão é conectado a uma caixa de ressonância, que funciona como um amplificador acústico. Neste ponto Galbraith resolveu se dedicar somente à música que realmente mais lhe importa, o que o levou a transcrever obras de Bach, Haydn, Grieg, e este Brahms que estamos ouvindo.
BG sobe
Não satisfeito com isto, ele resolveu ampliar os recursos do instrumento e projetou, com auxílio do luthier David Rubio, um instrumento de 8 cordas. Isto não é novidade, afinal Narciso yepes tocava num instrumento de 10 cordas e já no séc XIX a 7a e 8a cordas mais graves já eram exploradas, como ouvimos na gravação de Raphaella Smits. A novidade de Galbraith é que ele expande o limite superior da tessitura do violão com uma corda mais aguda. Desta forma, temos uma ampliação em ambas as direções, com uma corda mais aguda e outra mais grave, mantendo o instrumento em perfeita simetria.
Este é o instrumento que ele tem usado em seus concertos e gravações, e que lhe permite uma abordagem totalmente original. Sua gravação das obras para violino de Bach teve enorme repercussão e foi nominada para um Grammy.
BG Bach
Nela, Galbraith adota um princípio holístico em que a compreensão estrutural da obra é informada por um profundo entendimento dos aspectos teológicos da música de Bach e por um senso de proporção, equilíbrio e continuidade derivados do classicismo grego. Ele encara todo o ciclo de 6 sonatas e partitas como uma só obra, que ele executa sem interrupção, preenchendo de forma ornamental todos os momentos de silêncio, na busca de uma líquida continuidade sonora. Esta visão unificada é evidenciada pela escolha dos andamentos, em que uma única unidade de pulso é mantida, em proporção matemática, por todo o ciclo. Por exemplo, se o ouvinte tentar marcar o tempo nesta 1a partita, verá que todos os movimentos obedecem a praticamente uma só unidade de pulso:

EX. Galbraith
CD Bach FX 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12

O resultado é radical, drástico, provoca estranhamento, mas ao mesmo tempo a verdadeira fé que Galbraith deposita nestas obras é absolutamente sublime.

CD Bach FX 14
Bach Fuga BWV 1003 5´41

[desanúncio] casado com uma alaudista brasileira, Paul Galbraith reside em São Paulo há vários anos e raramente se apresenta no Brasil. Promotores de concertos, por favor, acordem!
Agradecimentos