A Arte do Violão

Programas idealizados e apresentados por Fábio Zanon

Programa XXII - Eliot Fisk e Sharon Isbin

"Se você nunca ofende ninguém, não é possível que esteja fazendo algo importante. Se você não defende nenhuma causa, não suscita controvérsia. Eu não suporto esta idéia de arte enlatada. Especialmente no mundo da música clássica, as coisas se tornaram tão enlatadas, o estilo de vida de vários músicos tem se tornado tão burguês e somente dirigido ao conforto pessoal. Suas vidas freqüentemente são tão ilhadas da realidade do mundo que sua música não possui mais nenhum elemento visceral".
Eliot Fisk


BG
De todos os violonistas em atividade hoje, o americano Eliot Fisk é certamente um dos mais interessantes, cultos e engajados, um dos poucos que se preocupam em fazer do violão um participante ativo da sociedade como um todo, e ao mesmo tempo um dos mais controversos e enervantes. Ele nasceu em Filadélfia em 1954 numa família cujos antepassados pertenciam à seita religiosa dos Quakers, o que explica, segundo ele, seu interesse por questões sociais. O fato de seu pai ser um professor de marketing talvez também explique seu talento para a auto-promoção. Desde cedo um aluno brilhante, ele ganhou várias bolsas para estudar com luminares como Oscar Ghiglia e Alirio Diaz. Na Universidade de Yale, estudou musicologia com o grande cravista Ralph Kirkpatrick e, mais tarde, tornou-se um protegido de ninguém menos que Andrés Segovia, que declarou: "Considero Eliot Fisk um dos mais brilhantes, inteligentes e dotados jovens artistas de nosso tempo, não somente entre os violonistas, mas no mundo da música como um todo". O apadrinhamento de Segovia e algumas controversas aparições em concursos chamaram a atenção do público e logo ele lançou suas primeiras gravações, entre elas uma instigante versão dos 12 estudos de Villa-Lobos.

Fita - V-Lobos
Estudos nos. 2 e 3 cerca de 4'

[desanúncio] Uma gravação onde já ouvimos a assinatura de Fisk: potência, energia, vitalidade, idéias inesperadas. Se no Programa anterior percebemos em Manuel Barrueco uma obsessão por auto-controle e eficiência industrial, em Eliot Fisk, seu exato contemporâneo, ouvimos um outro lado da mentalidade norte-americana: a auto-confiança missionária dos fundadores, a necessidade de ser sempre o mais rápido, o mais forte, o mais musical, o mais intenso, o mais isso ou aquilo ao invés de ser somente adequado. Eu particularmente acho o resultado às vezes revoltante, mas freqüentemente sublime. O que não é possível é lhe ficar indiferente.

CD Guitar Vistuoso
Scarlatti ou Bach

[desanúncio] Nesta gravação percebemos uma mentalidade iluminista: ele investiga a obra por dentro, explora ao mesmo tempo o intenso violonismo de seu mentor Segovia e as noções de articulação e ornamentação da moderna pesquisa histórica. Uma frase nunca é tocada duas vezes da mesma maneira, e há sempre uma certa tensão interna de quem está tocando no limite de sua capacidade técnica e mental. Estamos a um mundo de distância da técnica imaculada hoje em voga: Fisk toca como se o mundo fosse acabar amanhã e não tem tempo para detalhes pedantes.

BG - Maw
Sem sombra de dúvida, o que escreverá seu nome na história é o trabalho com os compositores contemporâneos. Estamos ouvindo um trecho de Music of Memory de Nicholas Maw, uma das inúmeras obras inspiradas pela enorme vitalidade de Fisk. É um monumento de mais de 20 minutos e uma das obras máximas do séc XX, que infelizmente não poderemos exibir na totalidade. Uma outra obra seminal escrita para Eliot fisk é a Sequenza XI de Luciano Berio, que já ouvimos em outro Programa, mas um trabalho hercúleo é sua versão das Caprice Variations de George Rochberg, originalmente escritas para violino. São nada menos que 50 variações sobre o famoso Capricho no.24 de Paganini, onde Rochberg aplica sua teoria da "expansão estilística", onde elementos pertencentes a todos os períodos da história da música se entrelaçam de forma às vezes harmoniosa, às vezes conflitante, exigindo do ouvinte uma constante suspensão do senso de tempo histórico. Algumas variações são verdadeiras colagens de obras de Beethoven, Brahms, Mahler ou Webern. O intérprete pode tocar quantas variações quiser, na ordem que preferir, desde que, segundo o compositor, mantenha o estranhamento estilístico que é a essência da obra.

CD Caprice Variations Faixas 1, 5, 16, 24, 15, 29, 4, 13, 3, 9, 47, 48, 50, 51
Rochberg, Caprice Variations c.22'

[desanúncio] Uma obra extremamente significativa para nossa época de sincronicidade. Esta vocação de Eliot Fisk para super-herói produziu um sem-número de trabalhos interessantíssimos, como sua transcrição dos 24 Caprichos de Paganini para violão. Outros violonistas, como o brasileiro Geraldo Ribeiro, já haviam tentado transpor as imensas dificuldades desse emblema do virtuosismo diabólico, mas Fisk não só gravou todos eles, mas o fez nas tonalidades originais, uma missão quase impossível. O Capricho no.5 impressiona pela bravura e velocidade, além de suas escalas executadas com a mão esquerda solo, mas o no.6 é um momento de pura poesia, onde os tremolos executados com uma suavidade extraordinária criam um verdadeiro brocado:

[desanúncio] Pode parecer, a julgar por estas gravações, que Eliot Fisk é um especialista em punições auto-impostas, mas Fisk tem verdadeira idolatria por Andrés Segovia, seu mentor musical, e absorveu como poucos a essência de seu estilo romântico, que ele continua transmitindo como um brilhante professor no Mozarteum de Salzburgo e no Conservatório de Nova Inglaterra em Boston; alguns verão uma espécie de caricatura na sua abordagem, mas Fisk é capaz de tocar obras despretensiosas com extraordinária ternura e refinamento segovianos, sem abdicar de sua originalidade.

CD Segovia
Franck: 2 Peças de L´organiste 2´58

[desanúncio e comentário] Curiosamente ele busca isso num violão notoriamente neutro, construído pelo luthier americano Thomas Humphrey, um projeto inovador que levanta a escala do violão como se fosse um violino, deixando-a em um ângulo em relação ao tampo, o que aumenta a potência do instrumento e melhora o acesso às notas mais agudas. Uma outra violonista bastante original que usa um violão Humphrey é Sharon Isbin.

BG
Ela é exata contemporânea de Fisk, Barrueco e Starobin, nascida em Minneapolis em 1956 numa família judaica. Ela estudou também com Oscar Ghiglia e Alirio Diaz, e fez um estudo particularmente profundo das obras de Bach com a renomada pianista Rosalyn Tureck.

BG sobe
Nos anos 70, o concurso internacional de maior prestígio era organizado trienalmente em Toronto, no Canadá. A edição de 1975 é por muitos chamado de "concurso do século". Sharon Isbin foi a vencedora, Manuel Barrueco segundo colocado e Eliot Fisk ficou em terceiro. Ela também venceu os concursos internacionais de Munique e de Madri, e estabeleceu-se como uma das artistas mais respeitadas dos EUA, inclusive é hoje a chefe da cátedra de violão na Juilliard School de Nova York.

BG sobe
Uma das características mais marcantes de Sharon Isbin é seu ecletismo. Ela toca bem qualquer tipo de música e é particularmente interessada em projetos multi-culturais, tendo já realizado gravações de música latino-americana, oriental, tradicional americana, etc. Mas a sua maior contribuição para a história do violão é, de novo, a colaboração com compositores, principalmente no repertório para violão e orquestra. A lista é imensa, e inclui nomes do porte de Lukas Foss, Tan Dun, Schwantner, Christopher Rouse e Aaron Jay Kernis, mas a obra mais interessante, para mim, é o concerto Troubadours de John Corigliano. Nesta obra o compositor demonstra sua obsessão pela relação da música atual com o passado. A orquestra cria uma nuvem de lembranças da qual o violão emerge como uma fantasmagoria da época dos trovadores. A obra é uma fricção entre técnicas contemporâneas e o aroma da música medieval, num diálogo onde o violão parece representar a força de um passado que continua a nos nutrir.

Fita
Corigliano: Troubadours. C.22

[desanúncio] Por mais que os artistas americanos tenham de ceder às armadilhas de uma sociedade voltada para o consumo, onde tudo tem um preço, mas quase nada tem um valor e a obra de arte facilmente se transforma em mercadoria ou auto-ajuda, nós temos de nos sentir esperançosos pelo fato de que ainda seja possível que artistas vitais como Eliot Fisk e Sharon Isbin possam dar plena vasão à sua visão de um violão original, integrado ao meio musical como um todo e com um papel a cumprir na sociedade contemporânea. Ademais, Eliot Fisk tem de ser parabenizado pelo trabalho de sua Fundação, que procura a humanização através da música, desenvolvendo projetos de inclusão social levando concertos a escolas, orfanatos, presídios, asilos e áreas carentes.
No próximo Programa, a arte de David Russell.
Agradecimentos.