Programa XXII - Eliot Fisk e Sharon Isbin
"Se você nunca ofende ninguém, não é possível que
esteja fazendo algo importante. Se você não defende
nenhuma causa, não suscita controvérsia. Eu não suporto
esta idéia de arte enlatada. Especialmente no mundo da
música clássica, as coisas se tornaram tão enlatadas, o
estilo de vida de vários músicos tem se tornado tão
burguês e somente dirigido ao conforto pessoal. Suas
vidas freqüentemente são tão ilhadas da realidade do
mundo que sua música não possui mais nenhum elemento
visceral".
Eliot Fisk
BG
De todos os violonistas em atividade hoje, o americano
Eliot Fisk é certamente um dos mais interessantes,
cultos e engajados, um dos poucos que se preocupam em
fazer do violão um participante ativo da sociedade como
um todo, e ao mesmo tempo um dos mais controversos e
enervantes. Ele nasceu em Filadélfia em 1954 numa
família cujos antepassados pertenciam à seita religiosa
dos Quakers, o que explica, segundo ele, seu interesse
por questões sociais. O fato de seu pai ser um
professor de marketing talvez também explique seu
talento para a auto-promoção. Desde cedo um aluno
brilhante, ele ganhou várias bolsas para estudar com
luminares como Oscar Ghiglia e Alirio Diaz. Na
Universidade de Yale, estudou musicologia com o grande
cravista Ralph Kirkpatrick e, mais tarde, tornou-se um
protegido de ninguém menos que Andrés Segovia, que
declarou: "Considero Eliot Fisk um dos mais brilhantes,
inteligentes e dotados jovens artistas de nosso tempo,
não somente entre os violonistas, mas no mundo da
música como um todo". O apadrinhamento de Segovia e
algumas controversas aparições em concursos chamaram a
atenção do público e logo ele lançou suas primeiras
gravações, entre elas uma instigante versão dos 12
estudos de Villa-Lobos.
Fita - V-Lobos
Estudos nos. 2 e 3 cerca de 4'
[desanúncio] Uma gravação onde já ouvimos a assinatura de Fisk: potência, energia, vitalidade, idéias inesperadas. Se no Programa anterior percebemos em Manuel Barrueco uma obsessão por auto-controle e eficiência industrial, em Eliot Fisk, seu exato contemporâneo, ouvimos um outro lado da mentalidade norte-americana: a auto-confiança missionária dos fundadores, a necessidade de ser sempre o mais rápido, o mais forte, o mais musical, o mais intenso, o mais isso ou aquilo ao invés de ser somente adequado. Eu particularmente acho o resultado às vezes revoltante, mas freqüentemente sublime. O que não é possível é lhe ficar indiferente.
CD Guitar Vistuoso
Scarlatti ou Bach
[desanúncio] Nesta gravação percebemos uma
mentalidade iluminista: ele investiga a obra por
dentro, explora ao mesmo tempo o intenso violonismo de
seu mentor Segovia e as noções de articulação e
ornamentação da moderna pesquisa histórica. Uma frase
nunca é tocada duas vezes da mesma maneira, e há sempre
uma certa tensão interna de quem está tocando no limite
de sua capacidade técnica e mental. Estamos a um mundo
de distância da técnica imaculada hoje em voga: Fisk
toca como se o mundo fosse acabar amanhã e não tem
tempo para detalhes pedantes.
BG - Maw
Sem sombra de dúvida, o que escreverá seu nome na
história é o trabalho com os compositores
contemporâneos. Estamos ouvindo um trecho de Music of
Memory de Nicholas Maw, uma das inúmeras obras
inspiradas pela enorme vitalidade de Fisk. É um
monumento de mais de 20 minutos e uma das obras máximas
do séc XX, que infelizmente não poderemos exibir na
totalidade. Uma outra obra seminal escrita para Eliot
fisk é a Sequenza XI de Luciano Berio, que já ouvimos
em outro Programa, mas um trabalho hercúleo é sua
versão das Caprice Variations de George Rochberg,
originalmente escritas para violino. São nada menos que
50 variações sobre o famoso Capricho no.24 de Paganini,
onde Rochberg aplica sua teoria da "expansão
estilística", onde elementos pertencentes a todos os
períodos da história da música se entrelaçam de forma
às vezes harmoniosa, às vezes conflitante, exigindo do
ouvinte uma constante suspensão do senso de tempo
histórico. Algumas variações são verdadeiras colagens
de obras de Beethoven, Brahms, Mahler ou Webern. O
intérprete pode tocar quantas variações quiser, na
ordem que preferir, desde que, segundo o compositor,
mantenha o estranhamento estilístico que é a essência
da obra.
CD Caprice Variations Faixas 1,
5, 16, 24, 15, 29, 4, 13, 3, 9, 47, 48, 50, 51
Rochberg, Caprice Variations c.22'
[desanúncio] Uma obra extremamente significativa para nossa época de sincronicidade. Esta vocação de Eliot Fisk para super-herói produziu um sem-número de trabalhos interessantíssimos, como sua transcrição dos 24 Caprichos de Paganini para violão. Outros violonistas, como o brasileiro Geraldo Ribeiro, já haviam tentado transpor as imensas dificuldades desse emblema do virtuosismo diabólico, mas Fisk não só gravou todos eles, mas o fez nas tonalidades originais, uma missão quase impossível. O Capricho no.5 impressiona pela bravura e velocidade, além de suas escalas executadas com a mão esquerda solo, mas o no.6 é um momento de pura poesia, onde os tremolos executados com uma suavidade extraordinária criam um verdadeiro brocado:
[desanúncio] Pode parecer, a julgar por estas gravações, que Eliot Fisk é um especialista em punições auto-impostas, mas Fisk tem verdadeira idolatria por Andrés Segovia, seu mentor musical, e absorveu como poucos a essência de seu estilo romântico, que ele continua transmitindo como um brilhante professor no Mozarteum de Salzburgo e no Conservatório de Nova Inglaterra em Boston; alguns verão uma espécie de caricatura na sua abordagem, mas Fisk é capaz de tocar obras despretensiosas com extraordinária ternura e refinamento segovianos, sem abdicar de sua originalidade.
CD Segovia
Franck: 2 Peças de L´organiste 2´58
[desanúncio e comentário] Curiosamente ele
busca isso num violão notoriamente neutro, construído
pelo luthier americano Thomas Humphrey, um projeto
inovador que levanta a escala do violão como se fosse
um violino, deixando-a em um ângulo em relação ao
tampo, o que aumenta a potência do instrumento e
melhora o acesso às notas mais agudas. Uma outra
violonista bastante original que usa um violão Humphrey
é Sharon Isbin.
BG
Ela é exata contemporânea de Fisk, Barrueco e Starobin,
nascida em Minneapolis em 1956 numa família judaica.
Ela estudou também com Oscar Ghiglia e Alirio Diaz, e
fez um estudo particularmente profundo das obras de
Bach com a renomada pianista Rosalyn Tureck.
BG sobe
Nos anos 70, o concurso internacional de maior
prestígio era organizado trienalmente em Toronto, no
Canadá. A edição de 1975 é por muitos chamado de
"concurso do século". Sharon Isbin foi a vencedora,
Manuel Barrueco segundo colocado e Eliot Fisk ficou em
terceiro. Ela também venceu os concursos internacionais
de Munique e de Madri, e estabeleceu-se como uma das
artistas mais respeitadas dos EUA, inclusive é hoje a
chefe da cátedra de violão na Juilliard School de Nova
York.
BG sobe
Uma das características mais marcantes de Sharon Isbin
é seu ecletismo. Ela toca bem qualquer tipo de música e
é particularmente interessada em projetos
multi-culturais, tendo já realizado gravações de música
latino-americana, oriental, tradicional americana, etc.
Mas a sua maior contribuição para a história do violão
é, de novo, a colaboração com compositores,
principalmente no repertório para violão e orquestra. A
lista é imensa, e inclui nomes do porte de Lukas Foss,
Tan Dun, Schwantner, Christopher Rouse e Aaron Jay
Kernis, mas a obra mais interessante, para mim, é o
concerto Troubadours de John Corigliano. Nesta obra o
compositor demonstra sua obsessão pela relação da
música atual com o passado. A orquestra cria uma nuvem
de lembranças da qual o violão emerge como uma
fantasmagoria da época dos trovadores. A obra é uma
fricção entre técnicas contemporâneas e o aroma da
música medieval, num diálogo onde o violão parece
representar a força de um passado que continua a nos
nutrir.
Fita
Corigliano: Troubadours. C.22
[desanúncio] Por mais que os artistas americanos
tenham de ceder às armadilhas de uma sociedade voltada
para o consumo, onde tudo tem um preço, mas quase nada
tem um valor e a obra de arte facilmente se transforma
em mercadoria ou auto-ajuda, nós temos de nos sentir
esperançosos pelo fato de que ainda seja possível que
artistas vitais como Eliot Fisk e Sharon Isbin possam
dar plena vasão à sua visão de um violão original,
integrado ao meio musical como um todo e com um papel a
cumprir na sociedade contemporânea. Ademais, Eliot Fisk
tem de ser parabenizado pelo trabalho de sua Fundação,
que procura a humanização através da música,
desenvolvendo projetos de inclusão social levando
concertos a escolas, orfanatos, presídios, asilos e
áreas carentes.
No próximo Programa, a arte de David Russell.
Agradecimentos.

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