A Arte do Violão

Programas idealizados e apresentados por Fábio Zanon

Programa XXI - Manuel Barrueco e David Starobin

A formação de uma prática reconhecivelmente norte-americana de música clássica evolveu gradualmente no séc XX com a absorção de influências do teatro musical inglês e dos cantos e danças africanas, mas na arte da interpretação musical a influência decisiva foi a chegada de milhares de professores oriundos dos escombros da Alemanha e da Rússia, grande parte deles judeus, que se adaptaram a uma mentalidade de máximo rendimento esportivo e tecnológico, e estabeleceram um alto padrão de brilhantismo técnico, especialmente no piano e nas cordas. O violão se desenvolveu um pouco mais devagar, mas hoje podemos falar de uma maneira tipicamente americana se tocar violão. Curiosamente, o violonista que epitomiza esta arte é um cubano: Manuel Barrueco.
BG
Ele nasceu em Santiago de Cuba em 1952 e iniciou seus estudos no conservatório local; sua família evadiu-se para os EUA quando ele tinha 15 anos, e lá ele estudou com outro cubano, Rey de la Torre, e poliu sua técnica com Aaron Shearer, o maior didata do violão americano, em Baltimore, onde hoje ele é o catedrático de violão. Em 1974 ele foi o primeiro violonista a vencer o importante concurso do Concert Artist´s Guild, e a partir daí sucesso seguiu sucesso com estréias nos principais teatros. Suas primeiras gravações datam deste período e já mostram a fórmula de seu êxito: uma técnica extremamente sólida e particularmente cristalina em passagens rápidas e articuladas, uma expressão pouca dada a exageros e uma escrupulosa leitura dos mínimos detalhes do texto musical:

Villa-Lobos: Estudo no.7

[desanúncio] Como ele mesmo disse, nesta gravação ele tentou ser bastante direto na sua leitura, sem tentar forçar suas próprias excentricidades sobre a música, e encarando Villa-Lobos como um compositor sério ao invés de vê-lo como um meio-termo entre a música popular e a música clássica. Este mesmo disco traz uma das poucas gravações do Estudo no.1 de Camargo Guarnieri, uma mini-obra prima que ilustra a expressão torturada e o finíssimo comando do contraponto do compositor brasileiro;

Guarnieri: Estudo no.1

[desanúncio] Barrueco é um dos violonistas mais estáveis da história. Cada uma de suas gravações é preparada laboriosamente e retrata perfeitamente a solidez de sua atuação ao vivo. Em suas próprias palavras, "eu tenho uma enorme negatividade, e isso é algo com que tenho de lutar. Sempre trabalho a partir de um tipo de energia negativa, da suposição de que as coisas não vão funcionar... isso acaba me levando a trabalhar ainda mais pesado. As pessoas pensam que tenho muita facilidade, mas eu sou dolorosamente auto-crítico e não há nenhum aspecto de minha técnica ou musicalidade que eu não tenha trabalhado conscientemente". Bem, ao menos nas suas gravações de música espanhola esse conflito é bem ocultado, e seu Albéniz é fluido e vigoroso.

Albéniz: Cataluña

[desanuncio] Barrueco não é um inventor, é um consolidador. Não há nenhuma grande novidade na sua técnica, sonoridade, abordagem musical ou repertório; ele se contenta em realizar versões supremamente polidas daquilo que já foi explorado por outros intérpretes. O que mais chama a atenção num primeiro momento é a vitalidade de sua pronúncia rítmica.

BG
Não importa a complexidade da música, seu pulso é constante e flexível, e percebemos um constante encurtamento da parte fraca dos tempos. Nesta obra, ao invés de uma execução quadrada e algo pesada [exemplo], ele prefere executar as figuras curtas ainda mais curtas [ex.], produzindo uma sensação de leveza e facilidade.

Granados: Arabesca

[desanúncio] Num escrutínio mais atento, porém, nós percebemos também sua habilidade incomum em traçar a forma da música com um aguçado controle da articulação. O que é articulação?

BG
Articulação em música é mais ou menos o mesmo que articulação na fala ou na anatomia: é o ponto de junção entre dois elementos sólidos. É a maneira como músico sai de uma nota e atinge a outra, de forma mais fluida ou ligada [ex.] ou de forma mais destacada e seca, com um pequeno espaço entre as notas [ex.]. Claro que os maiores artistas têm ao seu dispor uma infinita variedade de nuances e combinações. Se compararmos a um ator, é a arte de se fazer entendido, de dar granulação ao texto, o que, combinado com o controle do ritmo, cria um sotaque. Nesta obra de Bach, há uma série de idéias recorrentes que exigem coerência na sua articulação, sob pena do edifício musical simplesmente ruir. O intérprete tem várias opções igualmente aceitáveis: articular com nitidez todas as notas [ex.], ou toca-las num único fluxo ligado [ex.] ou agrupa-las de duas em duas [ex.], ou uma combinação destes procedimentos que torna o discurso mais complexo e estimulante [ex.]. Seja qual for a escolha, o intérprete tem de ser intransigente e fazer os maiores malabarismos para manter o padrão em toda a obra, não importa a dificuldade técnica. Neste aspecto, Barrueco é um mestre.

Bach: Prelúdio BWV 1006

[desanúncio] Outra característica marcante é um soberbo controle da dinâmica ou do volume sonoro. Este é um dos aspectos mais rebeldes da técnica do violão.

BG
Como o instrumento tem naturalmente um volume pequeno, o violonista está sempre correndo o risco de desaparecer quando toca suave, ou de explodir ou produzir um som bruto se toca forte demais. Com o cuidado de evitar os extremos, é muito comum ouvir-se violonistas que trabalham somente numa faixa média, onde as hierarquias musicais desaparecem e o efeito geral é de uma chatice incontornável. A saída é ajustar a qualidade do timbre, para separar a melodia do acompanhamento [ex.] e, em passagens extensas, de acúmulo de tensão, modular a dinâmica a prestações. Nesta passagem, por exemplo, é possível fazer uma sucessão crescendos seguidos de pequenos relaxamentos, com picos cada vez mais altos que se desencadeiam num ponto culminante [ex.Ponce]. Isto exige técnica perfeita, acuidade auditiva, e muito trabalho por parte do intérprete, e isso Barrueco tem de sobra.

Falla: Danza de la Molinera

[desanúncio] O repertório espanhol é o forte de Barrueco. Sua gravação da maior obra de Rodrigo, Invocación y Danza, é modelar, e imbuída do senso de mistério e claustrofobia herdado de Manuel de Falla através de uma rede de citações.

Rodrigo: Invocación y Danza

[desanúncio] O trabalho árduo que lhe é característico rende frutos no repertório barroco também. Nesta obra do barroco francês, a sua sonoridade algo metálica sugere com perfeição o efeito da guitarra barroca. É um instrumento de cinco cordas duplas, algumas das quais afinadas em oitavas, que criam uma infinita gama de recursos para o harpejo, ou seja, o espalhamento das notas de um acorde. Ao mesmo tempo, a diferença de afinação dificulta uma execução convincente no violão moderno, mas Barrueco toca com um senso infalível de estilo, ornamentação e elegância.

De Visée: Ouverture La Grotte de Versailles

[desanúncio] A pressão pelo perfeccionismo pode criar um efeito adverso num artista. Especialmente nos EUA, uma sociedade tecnológica e guiada pela ética das máquinas e do sucesso a qualquer preço, uma carreira exclusivamente baseada na ausência de erros faz com que o público não atente às conexões musicais mais profundas. Isso é uma tremenda pressão negativa para o músico, que associa sucesso à eficiência num processo narcisístico que abdica da vitalidade, uma qualidade essencial para uma experiência musical plena.

BG
Nesse sentido, eu vejo que Manuel Barrueco corre o risco de se tornar uma vítima do sistema: suas apresentações são invariavelmente perfeitas, mas ao mesmo sente-se um distanciamento, uma tensão interna mal-resolvida e uma atitude desengajada e temerosa. Sua sonoridade é cristalina, mas ao mesmo tempo pode tornar-se estranhamente impessoal, enfim, um artista impossível de não admirar, mas muito difícil de amar. Quiçá a recente turbulência política dos EUA possa ter ao menos um efeito positivo, o de levar os artistas a resgatarem seu eu e se disporem a comungar com o público de forma mais intensa, como Barrueco faz nesta magnífica obra cubana.

Brouwer: Rito de los Orishas ou
Angulo: Cantos Yoruba de Cuba

[desanúncio] Um outro fruto da escola americana de Aaron Shearer é David Starobin.

BG
Nascido em Nova York em 1951, cedo em sua carreira ele resolveu enveredar pela via da música contemporânea, participando de toda sorte de formações camerísticas e encomendando obras dos compositores mais destacados. Ao mesmo tempo, uma outra vertente de interesse é a mal-explorada música do século XIX, que ele tem tocado em instrumentos originais.

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Hoje Starobin é um dos violonistas mais respeitados dos EUA, catedrático de violão na Manhattan School de Nova York e incansável promotor da música contemporânea através de sua própria gravadora, a Bridge Records. Ele é possivelmente o violonista contemporâneo que mais significativamente contribuiu para a criação de um repertório sério e de qualidade. Encomendou e estreou centenas de obras de compositores do porte de Elliott Carter, Poul Ruders, George Crumb e Milton Babbitt. Desta extensa lista, aquela que parece destinada a ocupar um lugar perene no repertório é Changes, de Eliott Carter. Nela ouvimos duas características marcantes deste que é possivelmente o maior compositor americano do séc. XX: o atematismo, ou seja, um consciente evitar de qualquer recorrência de idéias, o que dá à obra um caráter sempre mutante; e a modulação rítmica, em que o andamento da peça pode passar disso [ex.] para isso [ex.] gradualmente através de alterações matemáticas da proporção rítmica. É uma obra de extrema dificuldade de leitura e Starobin, sem ser um virtuose, consegue toca-la como se fosse sua.

[desanúncio] O violão passa por uma época interessantíssima nos EUA, e no próximo Programa mostraremos mais dois grandes originais do violão americano: Sharon Isbin e Eliot Fisk.
Agradecimentos.