Programa XX - A Escola Rio-Platense dos Anos 70
Um dos conceitos mais artificiais que a crítica
musical jamais cunhou é o de escola instrumental.
Interpretação musical é uma expressão de
individualidade exacerbada, e um grande intérprete é
sempre aquele que cria seu próprio universo sonoro.
Porém, num dado momento e num certo lugar, é possível
perceber uma comunhão de interesses e prioridades
musicais: a bravura da escola russa de piano, a
precisão dos metais americanos, as qualidades
arquitetônicas da regência alemã. No violão, aquilo que
está mais próximo de constituir uma escola não acontece
na Espanha, mas bem perto de nós, na Argentina, Uruguai
e Sul do Brasil, uma espécie de escola rio-platense do
violão.
BG - Tamboriles?
É uma geração de violonistas que tomaram o mundo
musical de assalto nos anos 70, e que tem em comum os
professores argentinos Jorge Martinez Zarate e Abel
Carlevaro. Eles freqüentaram os célebres Seminários de
Violão de Porto Alegre e desenvolveram seu rigor
musical com o compositor Guido Santorsola. Eles
compartilham uma técnica límpida e natural, uma
abordagem racional e analítica do texto musical e uma
expressão sóbria. São, de uma certa forma, os europeus
da América Latina. Em 1975, o prestigioso concurso
internacional da Radio France em Paris teve dois
argentinos e dois uruguaios na final; todos os quatro
desenvolveram, posteriormente, uma carreira expressiva,
mas o vencedor foi o argentino Roberto Aussel.
BG Aussel
Aussel nasceu em 1954, deu seu primeiro concerto aos 13
anos e já havia vencido os concursos internacionais de
Caracas e de Porto Alegre antes do sucesso em Paris.
Hoje ele é um nome freqüente no panorama internacional
do violão e é professor na Escola de Música de Colônia,
na Alemanha. Se, por um lado, seu temperamento
conciliador tende a uniformizar indevidamente o
repertório romântico e moderno, por outro ele é
admirado por sua sonoridade líquida, que produz
elegantes interpretações de obras barrocas, como esta
suíte de Weiss:
CD Roberto Aussel
Weiss: Suite no.23, L´Infidele: Entrée, Musette
6´30
[desanúncio] Weiss foi um contemporâneo exato de
Bach e o alaudista mais admirado do séc.XVIII. Esta
suíte L´Infidele provavelmente deve seu título ao
caráter beligerante à aparição de dissonâncias que eram
consideradas "orientais" numa época marcada pelas
invasões turcas. A tonalidade de lá menor era
considerada apropriada para a expressão de um caráter
majestoso, honesto e bem dosado, o que é uma descrição
apropriada para esta interpretação de Roberto
Aussel.
BG
No mesmo concurso de Paris em 75, o segundo prêmio foi
dividido. Um dos agraciados foi Miguel Angel Girollet,
um verdadeiro aristocrata do violão, que fixou-se em
Madri antes de falecer prematuramente em 1996, sem
deixar uma discografia. O outro tornou-se o violonista
mais conhecido deste grupo, Eduardo Fernández.
BG
Fernandez nasceu em 1952 e, além de ter estudado violão
com Carlevaro, tem também uma sólida formação como
compositor e musicólogo. Como todos os violonistas
desta geração, ele se serviu dos concursos
internacionais como plataforma para sua carreira; além
do prêmio em Paris, ele foi vencedor dos concursos
internacionais de Porto Alegre e de Palma de Mallorca.
Suas estréias em Nova York e Londres em 1977 arrancaram
superlativos da crítica e levaram a gravadora Decca a
convidá-lo para uma série de CDs. Não é para menos, as
primeiras gravações de Fernandez já mostram um grau de
maturidade incomum.
Villa-Lobos
Ginastera: sonata, 2o mov Scherzo 2.00
[desanúncio] Esta Sonata de Ginastera é um
dos pilares do repertório do violão, mas Fernandez foi
o primeiro a grava-la e até hoje seu registro é uma
referência. Com um virtuosismo coruscante ele consegue
esculpir a atmosfera alucinatória que é um dos
ingredientes essenciais da arte de Ginastera.
BG
O que mais admiro em Eduardo Fernandez é sua cultura
musical absolutamente impecável. Seguindo a tradição de
Segovia e Bream, ele não se rende à pressão comercial e
só inclui em seu repertório obras de primeira ordem;
freqüentemente ele ressuscita obras-primas esquecidas e
realiza primeiras gravações de obras contemporâneas,
além de visitar setores inteiros do repertório com
acuidade estilística e sensibilidade para as
necessidades estruturais.
Fita: Legnani
Legnani: Caprichos em fa# menor e mi maior c.4
[desanúncio] Legnani é um contemporâneo exato
de Paganini e esteve no centro da vida musical do séc.
XIX; freqüentemente ele dividiu o palco com os maiores
artistas de sua época, como Liszt, Clara Schumann e
Moscheles. Seus 36 Caprichos são um compêndio do violão
pré-romântico e estavam praticamente esquecidos até a
gravação de Fernández.
BG
Fernandez é conhecido por uma admirável acuidade
mental. Além de ser capaz de analisar em profundidade
qualquer obra de seu repertório, ele é capaz de
aprender obras inteiras de cor sem ter de tocá-las ao
violão; ele é versado em literatura e tem pleno domínio
de várias línguas, inclusive o japonês. Pode parecer
que isso não tem nada a ver com o desempenho de um
concertista, mas uma obra como a Sequenza de Berio
exige de um intérprete não só uma técnica poderosa, mas
também cultura no mesmo patamar. Nela, Berio constrói
uma estrutura em que dois blocos de material
contrastante são colocados em oposição logo no início;
gradualmente ele vai criando pontes entre eles,
ampliando as possibilidades técnicas do violão com
técnicas emprestadas do flamenco e da guitarra
elétrica.
CD Avant Garde
Berio: Sequenza XI 16.39
[desanúncio] Uma obra-prima que, devido à sua
dificuldade, ainda não é tocada com freqüência.
Fernández tem uma técnica de notável fluência; Se há
uma pequena coisa a criticar é a sua qualidade de som,
que às vezes resulta um pouco arenosa e sem lustro; ao
vivo isso não é tão evidente, mas a engenharia de som
de suas gravações pela Decca não lhe faz nenhum
favor.
BG
Pode parecer que ele só tem interesse por raridades e
obras muy sérias, mas ele também é capaz de produzir
versões cintilantes de obras mais leves, como esta de
Antonio Lauro, onde o compositor reproduz a sonoridade
da harpa venezuelana. Os soldados de Bolívar
provavelmente se divertiam tocando joropos como este.
Não admira que tenham vencido a guerra.
CD La Danza
Lauro: Seis por Derecho 4´?
[desanúncio] O sucateamento das grandes companhias discográficas levou Fernandez a abandonar a Decca por uma gravadora menor, onde ele tem mais liberdade de escolha sem pressões comerciais. Sua total imersão em qualquer obra que esteja tocando produziu o que considero a melhor gravação das obras de Bach ao violão. Elas têm uma qualidade fundamental: coerência intelectual. A estrutura motívica é sempre articulada de maneira uniforme, a ornamentação é historicamente perfeita, sem se sobrepor à concepção original de Bach, e seu controle da dinâmica sempre respeita a macro-estrutura harmônica destas obras.
CD Bach
Bach: Suíte BWV 997, Prelude, Gigue, Double 2.40
1.24
1.22
[desanúncio] Mais recentemente, ele tem gravado o repertório do séc XIX com um instrumento de época, uma cópia de um violão de 1830 que pertenceu ao compositor desta peça, Dionísio Aguado.
Eduardo Fernandez, Romantic
Guitar, Fx
Aguado: Introdução e Rondo op.2 no.3 em ré maior
9´30´´
[desanúncio] O vencedor do Concurso de Paris
em 1977 foi o uruguaio Álvaro Pierri.
BG
Ele também já havia vencido o concurso de Porto Alegre
e morou no Brasil por vários anos, como professor na
Universidade de Santa Maria, no RS. Hoje ele divide seu
tempo entre Montreal e Viena, e é o catedrático de
violão nas escolas destas duas cidades, além de ser um
concertista bastante requisitado.
Pierri tem talvez a técnica mais sofisticada de todos
os violonistas dessa geração, mas ela serve a uma
personalidade musical bastante excêntrica. Ele tende a
desenvolver à máxima potência algum aspecto estrutural
das obras que escolhe, e o faz de maneira absolutamente
obsessiva, muitas vezes desconsiderando até mesmo as
indicações do próprio compositor e qualquer convenção
interpretativa consagrada pela tradição.
BG
Neste prelúdio de Villa-Lobos, por exemplo, ele toca o
acompanhamento sempre com um ligeiro harpejo,
espalhando as notas do primeiro acorde, exceto nos
casos em que há um movimento cromático. O andamento é
consideravelmente mais lento que aquele a que estamos
habituados, especialmente na seção central, mas ele
"desenha" o movimento melódico da peça com um controle
de dinâmica digno de um ourives.
Fita Pierri
Brouwer: Villa Prelúdio no1 c.5´
[desanúncio] O caráter desta interpretação é
totalmente diferente daquilo ao que o ouvinte está
acostumado, mas ao mesmo tempo é de total coerência.
Talvez não seja a gravação mais indicada para quem
nunca ouviu a peça, mas para quem já a conhece é sempre
instigante. É apropriado que um intérprete tão singular
viva no Canadá, a terra de Glenn Gould, o pianista que
mais defendeu o direito de intervenção intelectual do
intérprete. Outro violonista argentino que tem
suscitado bastante interesse nos últimos anos é Eduardo
Isaac.
BG
Ele nasceu em 1956 e se escolou nos cursos ministrados
por Carlevaro na Argentina e Porto Alegre. Ele é um
múltiplo vencedor de concursos internacionais, entre
eles os de Porto Alegre, Madri e palma de Mallorca, e
tem se especializado no repertório do século XX. Além
disso ele é catedrático de violão no conservatório de
Entre Rios, e alguns violonistas brasileiros têm se
aperfeiçoado com ele nesta cidade fronteiriça.
O que mais admiro em Isaac é o bom gosto na escolha de
obras contemporâneas, que ele toca com verdadeira
devoção, como esta sonata de Bogdanovich:
Cd 20th Century Guitar I
Bogdanovich: sonata I 1o mov 3.03
[desanúncio] Bogdanovich é um compositor
sérvio que vive em San Francisco. Ele começou sua
carreira como um compositor folclorista, seguindo o
exemplo de Bartok, e mais recentemente tem utilizado
elementos de improvisação numa obra imensa e de alto
interesse. Esta sonata é uma de suas primeiras
obras.
BG
A palavra-chave para definir Eduardo Isaac é a
estabilidade. Suas interpretações sempre primam por um
perfeito balanço entre inspiração e erudição, entre
coração e cabeça. Sua sonoridade é algo opaca, mas
amplamente compensada pela sua claridade de fraseado,
como neste prelúdio de seu mestre Abel Carlevaro:
CD Carlevaro
Carlevaro: Evocación 5.33
[desanúncio] Carlevaro aliás é um compositor
interessantíssimo, e esta gravação de um de seus
melhores alunos é um tributo e uma referência.
BG
Quando eu tinha 15 anos de idade e estava começando a
tocar profissionalmente, os colegas sempre perguntavam
"quando é que você vai sair?", como se o único caminho
para um concertista de violão sul-americano fosse
residir na Europa ou nos EUA. A verdade é que todos os
intérpretes deste Programa tiveram 100 % de sua
formação em casa, construíram suas carreiras vencendo
concursos internacionais, são idolatrados no circuito
internacional de violão e, no caso de Fernández e
Isaac, continuam morando em seus próprios países. Como
o futebol, o violão sul-americano é referência mundial
e artigo de exportação.
No próximo Programa, a arte de Manuel Barrueco e David
Starobin.
Agradecimentos Henrique Pinto, Eduardo Fernández e
Gilson Antunes.

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