Programa XIX - Los Romeros
Era muito comum até o século XVIII a ocorrência de
famílias inteiras devotadas ao ofício da música. A
profissão tinha um caráter artesanal e corporativo, e o
know-how era passado de pai para filho como um livro de
receitas secreto; exemplos óbvios são as famílias Bach,
Benda e Mozart. A partir do Romantismo e sua ênfase no
individualismo artístico, este fenômeno recrudesceu e,
se normalmente grandes intérpretes são alimentados no
seio de uma família musical, raramente há uma sucessão
de estrelas com o mesmo sobrenome. Um raio não pode
cair duas vezes no mesmo lugar, e as raras exceções,
como nas famílias Oistrakh ou Serkin, demonstram que um
pai notável é tanto um modelo quanto um peso a se
carregar. Mas temos um raro caso, no violão, de uma
família que tem passado a tocha por três gerações: a
Família Real do Violão, Los Romeros.
BG: Concierto Andaluz
A origem da dinastia está em Celedonio Romero, um
espanhol nascido em Cuba em 1913, que foi aluno de
Daniel Fortea, que por sua vez foi aluno de Tarrega.
Desde cedo ele tornou-se um respeitado concertista,
tendo sua base em Málaga, mas teve enormes dificuldades
para desenvolver sua carreira depois da Guerra Civil
Espanhola, por ser abertamente contrário ao regime do
General Franco. Entretanto, em 1958 ele conseguiu se
evadir, junto com sua família, primeiro a Portugal e
depois aos EUA. A fama de seus filhos tem obscurecido o
valor de Celedonio como solista até certo ponto, mas a
evidência de suas gravações mostra um músico sólido,
técnica esplêndida e de uma espécie de musicalidade
senhoril que trai uma conexão direta com o séc.XIX,
como podemos ouvir nesta pequena peça de sua autoria,
que ele gravou poucos meses antes de falecer em
1996:
CD Celedonio, Fx 5
Celedonio Romero: Fantasia (Suíte Andaluza) 3.47
[desanúncio] Uma peça sem maiores
conseqüências, mas de inegável charme, gravada com
galhardia e técnica impecável por um já alquebrado
senhor de 83 anos, um verdadeiro exemplo de
vitalidade.
BG Celedonio
Ele foi um pai devotado e um tremendo professor, pois
como disse seu filho Pepe, "desde minhas primeiras
lembranças, ele me fez sentir que eu era um músico, que
era um violonista, que eu era seu amigo e que era seu
parceiro". Seus três filhos, Celín, Pepe e Ángel,
começaram a aprender violão aos 3 anos de idade; Celín,
o mais velho, nunca teve pretensões como solista e hoje
se dedica principalmente ao ensino e ao quarteto da
família, mas Pepe e Ángel começaram como
meninos-prodígio e logo juntaram-se ao pai em suas
turnês. Dos irmãos, o que tem gozado de uma carreira
mais consistente é o filho do meio, Pepe Romero.
BG
Pepe nasceu em Málaga em 44 e, como o pai, é fluente
tanto no violão clássico como na guitarra flamenca.
Pouca gente se dá conta de que, apesar dos instrumentos
serem idênticos, a técnica, a "pegada" e o raciocínio
musical não só são diferentes, mas, em muitos casos,
antagônicos, e um pleno domínio da linguagem do
flamenco exige dedicação integral. Uma das idéias fixas
de Segovia era distinguir por completo uma arte da
outra, o que aumentou ainda mais o cisma entre elas.
Uma das grandes inovações da família Romero foi tentar
reunir o melhor de ambos os lados e enriquecer o violão
clássico com a intensidade do flamenco, ao mesmo tempo
em que o flamenco tornou-se mais refinado com a minúcia
da formação clássica, como exemplifica esta gravação de
Pepe:
CD Flamenco Fx 9
Trad: Bulerías 4.39
[desanúncio] Raramente se escuta flamenco tocado com tanto refinamento sonoro. Este conhecimento íntimo da arte folclórica andaluza, aliado a uma cultura musical inatacável, tornam Pepe um dos maiores intérpretes do repertório clássico espanhol. Ele consegue tornar convincente até uma obra como a Sonata de Turina, onde não só corrige os problemas formais com uma judiciosa escolha de andamentos, mas também alucina o ouvinte com seus rasgueados de arrepiar os cabelos.
CD Noches de España
Turina: Sonata 3º. Movimento allegro 2.56
[desanúncio] Pepe é também um profundo conhecedor da literatura da época de ouro do violão no século XIX e, entre inúmeras gravações de Sor, Boccherini, Carulli, etc. eu destaco a gravação integral dos concertos de Mauro Giuliani, obras-primas do gênero apesar de pouco conhecidas. Infelizmente estes concertos são longos e não caberiam completos neste Programa, mas para ilustrar a maestria com que Pepe Romero defende este magnífico repertório ouviremos um fragmento do concerto no.2.
[desanúncio] Uma obra formidável, onde Giuliani tenta criar a síntese entre o estilo operístico italiano e a complexidade formal do classicismo vienense, interpretada de forma algo espanholada por Pepe Romero. Pepe é hoje, merecidamente, um dos mais populares solistas internacionais, dos poucos que regularmente tocam com todas as maiores orquestras; apesar de, atendendo à demanda, ele tocar o desgastado Concierto de Aranjuez com frequência maior que a desejável, ele tem o mérito de ter gravado um vasto repertório bem menos conhecido. Ele é também um grande colecionador de violões e toca sempre com instrumentos diferentes, mas todos são de categoria excepcional; inclusive um de seus filhos é agora um respeitado luthier. Seu irmão mais novo, Angel, também tem uma esplêndida carreira como solista.
BG Angel: Rodrigo, Elogio de la Guitarra Fx 4
Tecnicamente, é difícil verificar alguma diferença marcante entre eles, são madeira da mesma cepa, mas Angel tem uma musicalidade transbordante e um gosto musical algo menos erudito que Pepe. Sua verve no repertório mais leve e a sua boa pinta, que lembra um pouco Antonio Banderas, garantem o sucesso de seus CDs, mas as gravações mais sérias, como a deste concerto de Moreno Torroba, atestam uma integridade artística que justifica a prática mais comercial.
LP Concertos
Moreno Torroba: Concierto de Castilla, 3o. Mov.
Allegretto sostenuto 6.27
Orquestra de Camara Inglesa, Moreno Torroba reg.
[desanúncio] A família Romero era muito ligada ao grande compositor espanhol Joaquín Rodrigo. Ele dedicou várias obras a Celedonio, Pepe e Angel, inclusive um concerto solo e um concerto para 4 violões e orquestra. Mas a gravação que mais me impressiona é a da obra mais sofisticada de Rodrigo, um concerto para dois violões e orquestra escrito para o duo Presti-Lagoya, o Concierto Madrigal.
Cd ou fita, Concierto
Madrigal
Rodrigo: concierto Madrigal, movs. Madrigal, Entrada,
Pastorcito tu que vienes partocito tu que vas,
Girardilla c.8 min.
[desanúncio] Uma obra estimulante, de
orquestração magistral, que tem a forma de uma
introdução e oito variações sobre um madrigal do séc
XVI. O trabalho do duo não chega a mostrar a finesse de
um duo Abreu, mas eles tocam com fogo, de maneira quase
beligerante, e com um virtuosismo aterrador. A
velocidade de aço da girardilla é algo que somente se
conquista com décadas de prática assídua de escalas,
nesta que é uma das grandes gravações de música
espanhola do século.
BG - Carmen
É apenas natural que esta plêiade de virtuoses na mesma
família se juntem para tocar, e desde sua mudança para
os EUA em 1958 o quarteto Los Romeros tem tido uma
carinhosa acolhida, não só pelo seu valor artístico,
mas pela imagem de afeto familiar que exsude de suas
apresentações, que é completa pela presença da mãe,
Angelita Romero, tocando castanholas. A formação de
quarteto de violões não tem uma tradição centenária e a
maior parte do repertório consiste de transcrições ou
de obras encomendadas. Naturalmente eles gravitaram
para a órbita da música de entretenimento, o que eles
fazem com imenso savoir faire.
CD Carmen Fx 9
Moreno Torroba: Sonatina Trianera 8.10
[desanúncio] A Família Romero, desta forma,
tem levado um entretenimento de qualidade ao público há
50 anos. Eles abriram o precedente à formação de
quarteto de violões, que hoje goza de enorme
popularidade no cenário do violão clássico.
BG
Em 1993 Ángel decidiu dedicar-se à carreira solo e, com
o falecimento de Celedonio em 96, a formação do
quarteto agora inclui seus netos Celino e Lito. Se, por
um lado, a excessiva ênfase no repertório espanhol, com
milhares de apresentações dos concertos de Rodrigo,
encoraja a visão distorcida de que o violão tem um
repertório circunscrito a somente um estilo, o êxito
internacional do quarteto, e de Pepe e Angel como
solistas, garante a presença do violão na Programação
das maiores orquestras e séries de música de
câmara.
Agradecimentos a Pepe Romero e Henrique
Pinto.

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