A Arte do Violão

Programas idealizados e apresentados por Fábio Zanon

Programa XVIII - Kazuhito Yamashita

O imaginário popular sempre associa o violão com a Espanha e a América Latina, mas um dos países onde mais se toca violão hoje é o Japão. A progressiva adoção da cultura ocidental ao longo do séc XX firmou o instrumento no país e, já nos anos 30, há uma cultura violonística, com professores, compositores e concertistas. Nos anos 60, com a formação de clubes de violão com milhares de membros, o país começa a exportar concertistas, e aquele que tem provocado maior impacto no cenário internacional é um original, com formação 100 % japonesa: Kazuhito Yamashita.

BG
Nascido em Nagasaki em 1961, ele foi menino-prodígio e seu único professor foi seu pai. Sua formação foi bem pouco ortodoxa e, ao lado da literatura tradicional do instrumento, ele desde cedo criou o hábito de fazer arranjos para violão de todo tipo de música que atraísse sua atenção, fosse uma obra sinfônica ou um simples tema de televisão. Progressivamente, sem ter nenhum parâmetro de comparação, ele criou um enorme arsenal de novos efeitos e possibilidades técnicas. Aos 15 anos já era vencedor de todos os concursos de música de seu país, e aos 16 viajou à Europa pela primeira vez, tornando-se o mais jovem vencedor da história do prestigioso concurso da Radio France em Paris em 1977. Nos anos seguintes sua carreira tomou corpo tanto no Oriente quanto na Europa e, em 1981, lançou seu primeiro disco, que marcou época: sua própria transcrição para violão solo dos Quadros de uma Exposição de Mussorgski, baseada na versão orquestral de Ravel. Infelizmente esta obra completa preencheria quase toda a duração do Programa e não nos daria a chance de ouvir outras gravações interessantíssimas, mas alguns movimentos já nos dão a idéia do verdadeiro choque elétrico desta estréia de Yamashita.

CD Mussorgski, faixas 1, 8, 9 e 10
Mussorgski: Quadros de uma exposição
Promenade, Gnomo, Catacumbas, A cabana de Bab Yaga, A Grande Porta de Kiev 19.26
1981

[Desanúncio] Confesso que até hoje não me recuperei da surpresa ao ouvir esta gravação pela primeira vez. Eu não poderia sequer imaginar que o violão era capaz de fazer tudo isso. A primeira coisa que chama a atenção é a imensa vitalidade da interpretação, de uma energia arrasadora. O colorido orquestral é reproduzido fielmente através de um ágil deslocamento da mão direita: ele sugere a sonoridade dos metais, tocando em várias posições próximas ao cavalete [exemplo]; das madeiras agudas tocando em harmônicos [ex]; dos cellos e contrabaixos, tocando sobre a escala do violão com a polpa do polegar [ex]; ele produz uma sonoridade mais redonda para sugerir o saxofone [ex]; ou mais pontiaguda para o oboé [ex]; ou toca exatamente na metade da corda para reproduzir o som da tuba [ex]. Ele desenvolveu vários tipos de tremolo, os quais, que eu saiba, nunca haviam sido explorados antes, que sugerem diferentes texturas orquestrais: um harpejo tremolado [ex], uma escovadela com a palma das mãos para sugerir os violinos em pianíssimo [ex]; ele consegue tocar em dedillo, ou seja, com o vai e vem de somente um dedo, tocando a corda alternadamente com a o lado de cima e de baixo da unha, mas com qualquer dedo, inclusive o mindinho; e isso, tocando acordes ao mesmo tempo, um feito extraordinário! [ex]; buscando mais velocidade e um efeito de metralhadora em passagens de notas repetidas, ele toca grupos de duas notas com três dedos, em que o indicador, médio e anular funcionam como ponto de apoio alternadamente [ex]; e até consegue sugerir o rulo do tambor militar [ex] ou o efeito de sinos, com uma rápida alternância de sons ocos e metálicos [ex]. Isso sem contar os efeitos menos evidentes numa gravação, mas dificilíssimos, como a superimposição de ligados em direções opostas, rápidos saltos, extensões extremas da mão esquerda, trinados simultâneos de mão esquerda e direita.

BG
Pode parecer que esta batelada de efeitos tem um intuito puramente circense e exibicionista, mas a verdade é que sua interpretação é magistral e capta perfeitamente a essência pré-expressionista, depressiva e onírica, da arte de Mussorgski; eu conheço poucas gravações do original desta obra ao piano que sejam tão vívidas quando a versão de Yamashita para violão.

BG
Estas inovações de Yamashita já têm mais de 20 anos, mas ainda não foram digeridas por outros violonistas; outras tentativas de tocar este Mussorgski não têm sido tão felizes, e poucos estudantes têm a paciência de estudar estes efeitos miraculosos que, entretanto, não têm espaço em outras esferas do repertório. Yamashita está, neste aspecto, 50 anos à frente de seu tempo e tenho certeza que a composição contemporânea eventualmente incorporará estes efeitos em obras originais e forçará as próximas gerações a desenvolverem um grau de virtuosidade que, hoje, pertence somente a Yamashita.

BG
Este não foi um evento isolado. Yamashita, nos anos seguintes, realizou arranjos para violão do Pássaro de Fogo de Stravinski, da Sinfonia Novo Mundo de Dvorak, do concerto para violino de Beethoven e, em duo com sua irmã Naoko, gravou a Scheherazade de Rimski-Korsakov. Isso tudo soaria muito suspeito se ele não tivesse já ao seu crédito, com apenas 43 anos de idade, mais de 60 CDs, que cobrem uma vasta parcela do repertório tradicional, incluindo, por exemplo, a obra completa para violino, cello e alaúde de Bach.

Bach, faixa 13
Suíte para cello BWV 1012, prelúdio 5.10

[desanúncio] Esta interpretação é típica de sua abordagem de Bach, bastante tradicional e inflada, mas, para um violonista acostumado a tocar no extremo da possibilidade do instrumento o tempo todo, certos aspectos não soam tão satisfatórios. A técnica de Yamashita, no que se refere a velocidade, intensidade, garra, é sem paralelo, mas o acabamento fica prejudicado com este excesso de energia. O que é acabamento?

BG - Bach Fx 7
A música clássica tende a priorizar os sons de freqüências definidas, ou sons musicais, onde as ondas sonoras vibram de forma periódica e harmoniosa. Em contrapartida, o ruído, um som de vibrações caóticas, é visto como um elemento desagregador, ao menos até o séc.XIX. Um bom acabamento, na técnica de qualquer instrumento, é aquele que permite os sons musicais serem projetados com um mínimo de interferência de ruído. No caso do violão, estes ruídos são as alfinetadas das unhas [ex]; chiados de cordas [ex]; notas que, ao serem tocadas com força excessiva, rebatem contra o braço do violão [ex]; ou que zumbem ao serem mal-pisadas [ex].
Yamashita é um violonista singular, que alternadamente toca com total abandono e não liga para esse tipo de coisa, e até incorpora estes defeitos como "efeitos" musicais [ex], ou que ocasionalmente pode produzir uma sonoridade de derreter o coração [ex]. O público, em geral, ou ama ou detesta.

BG
Eu acho que o mais sensato é tentar ouvir seletivamente e, mentalmente, "eliminar" as idiossincrasias de sua técnica e tentar apreciar sua colossal musicalidade.

BG
Ele gravou a obra completa de Sor, em mais de 10 CDs, mas também pesquisou outros autores obscuros do séc XIX. Escutem, por exemplo, este interessantíssimo arranjo de Haydn feito pelo violonista francês François de Fossa:

CD Fossa, fx 12
Haydn/Fossa: presto da Sinfonia no 85 "La reine" 2.09

[desanúncio] No repertório espanhol, ele também se excede e produz versões com um tremendo arranque, de uma vitalidade ameaçadora:

CD Espanhóis
Asencio: Collectci Intim, 5o mov, La Frisança 2.27

[desanúncio] É difícil achar uma obra que Yamashita não tenha tocado. Sua facilidade para aprender músicas novas é proverbial e, com uma técnica deste tamanho, nada é difícil o suficiente. Uma de suas gravações mais interessantes é a dos grandes ciclos de Castelnuovo-Tedesco, o Platero y Yo e os 24 Caprichos de Goya. Nesta obra, C-T ilustra musicalmente a notória série de gravuras do artista espanhol Francisco Goya, um sarcástico e desesperado ataque à decadência da sociedade espanhola no início do séc XIX. Nesta assustadora gravura, ele ataca o trabalho das parteiras que realizavam abortos:

Cd Caprichos de Goya Fx 19
C- Tedesco: Hilan Delgado 2.27

[desanúncio] Castelnuovo -Tedesco é um compositor demasiado comportado e urbano para ilustrar um ciclo tão macabro, mas o virtuosismo diabólico de Yamashita re-instaura o equilíbrio e aumenta o impacto desta obra.

BG - Japão Fx 1
Mas Yamashita também toca a música de seu país, e um de seus discos mais encantadores e delicados traz obras compostas por violonistas japoneses, talvez os equivalentes de Isaías Sávio ou Garoto daquele país. Esta gravação enterra a idéia de que Yamashita só brilha quando toca milhões de notas. Poucos violonistas conseguem criar uma atmosfera de paz tão completa.

CD Japão Fx 26
Shun Ogura (1901-77), Magouta 1.34

[desanúncio] Vários compositores japoneses dedicaram obras para ele, inclusive vários concertos para violão e orquestra. Um dos mais impressionantes é o Concerto "Pegasus Effect", de Yoshimatsu; no primeiro movimento ele consegue criar uma textura mágica com somente dois acordes e uma profusão de ornamentos e inusitados efeitos orquestrais.

CD Yoshimatsu
Concerto para v e orq "Pegasus Effect", 1o mov Bird 9.27
Sinfo-Filarmônica de Tóquio, reg Tadaaki Otaka

[desanúncio] Ao contrário do que sua atividade musical possa fazer crer, Yamashita é uma pessoa tranqüila, modesta e equilibrada, de uma polidez tipicamente japonesa. Ele mora no Japão com sua mulher e quatro filhos, é uma celebridade local e, nos últimos anos, tem evitado extensas turnês no Ocidente, pois é um dedicado homem de família. Do ponto de vista artístico, ele suscita acalorada discussão, mas não se pode negar que ele é o passo mais evidente na direção de uma evolução das possibilidades do violão na segunda metade do séc XX, comparável a Segovia 60 anos antes. O desafio para a próxima geração é conciliar as suas criações no campo do virtuosismo com as evoluções na esfera da musicologia e do acabamento técnico das últimas décadas.
Agradecimentos.