Programa XVII - Sérgio e Eduardo Abreu
Num país como o Brasil, onde a música clássica nunca
ocupou uma posição central na educação e na vida
social, grandes compositores ou intérpretes têm a aura
de aparições miraculosas, fantasmagóricas. Artistas
como Carlos Gomes, Villa-Lobos, Guiomar Novaes ou
Nelson Freire são dissidências da ordem natural das
coisas, verdadeiros cometas: intensos, distantes e
fugazes. Dois irmãos cariocas juntaram-se, nos anos 60
e 70, a este limitado olimpo e são objeto de culto no
mundo todo: Sérgio e Eduardo Abreu.
BG
Eles nasceram no Rio de Janeiro em 1948 e 49,
respectivamente, em uma família em que o pai e o avô
eram professores de violão. Quando os garotos já haviam
superado o que havia para se aprender em casa,
continuaram seus estudos sob a égide da enigmática
violonista argentina Adolfina Távora, uma ex-aluna de
Segovia, metódica e de vasta cultura que, por vir de
uma família de posses, nunca buscou uma carreira como
concertista ou professora. Em sua passagem pelo Brasil,
somente aceitou quatro alunos regulares: os irmãos
Abreu e os irmãos Assad. Esta é uma das poucas
gravações deixadas por ela:
CD Simalha, S Marcos, Távora
etc.
Assioli: 1.25
[desanúncio e comentário] Ela era adepta de uma preparação rigorosa, em que uma nova obra era estudada em detalhe por alguns meses, posta de lado, estudada de novo, e o processo se repetia até que o aluno pudesse tocá-la com perfeição a qualquer momento, sem aviso prévio. A estréia do duo Abreu em 1963 foi um sucesso estrondoso, mas ela os orientou a tocar somente um ou dois concertos por ano para que a rotina de concertos não afetasse seu desenvolvimento no longo prazo. De qualquer forma, o ambiente doméstico não distinguia estudo de brincadeira e a rigorosa disciplina foi uma decorrência natural. Em 1967 Sérgio venceu o prestigioso concurso internacional de Paris, e no ano seguinte Eduardo obteve o 2o prêmio; a partir daí, de acordo com Sérgio, "a carreira começou a tomar conta de si mesma" e eles obtiveram excepcional recepção nos maiores centros musicais e foram convidados a gravar pela Decca e pela CBS. Esta é sua primeira gravação comercial, feita em 1968.
[desanúncio] Uma gravação de excepcional
maturidade para jovens de 18 ou 19 anos, numa
transcrição que exime Albéniz de sua herança da música
de salão e projeta a sua modernidade num colorido
sofisticado, que realça a reiteração nervosa das
frases.
BG - Telemann
É curioso o fato de que, no início, os irmãos tocavam
duos como uma experiência de disciplina artística, mas
as próprias contingências da carreira - é mais prático
organizar um concerto só para dois irmãos - acabaram
levando-os a adotar um formato em que eles abriam o
concerto com alguns itens em duo, Sérgio fechava a
primeira parte com alguns solos, Eduardo abria a
segunda sozinho e o Programa se encerrava com mais
duos.
BG sobe
Apesar da absoluta sincronia de ritmo e dinâmica,
podemos perceber que eles tiram partido das ligeiras
diferenças técnicas. [fade BG] Neste tema com
variações de Sor, ouvimos no canal direito a sonoridade
mais brilhante, robusta e articulada de Sérgio, e no
canal esquerdo a sonoridade mais líquida, sustentada e
penetrante de Eduardo. Como nesta obra as repetições se
alternam entre o primeiro e segundo violão, essa
pequena diferença cria a variedade necessária numa
interpretação de intenção musical impossivelmente
uniforme.
[desanúncio] Um compositor freqüentemente
assassinado que recebe aqui uma interpretação a um
tempo espontânea, vibrante e sóbria, que, nas palavras
de Sérgio, combina "um profundo sentimento romântico
com uma pureza clássica de estilo", uma interpretação
parnasiana.
BG
O fascínio que os irmãos Abreu exercem deve-se muito à
sua intransigência no aspecto de acabamento técnico,
que é empregado em uma concepção musical ampla e
exuberante, mas de rigor estilístico sem precedentes.
Poucos são os artistas que têm um comando tão completo
e abrangente de todos os aspectos da realização
musical; os irmãos Abreu juntam-se a mitos como Arturo
Benedetti Michelangeli, Krystian Zimerman e Jascha
Heifetz em seu perfeccionismo obsessivo.
BG
Isto exige uma dedicação completa a uma variedade de
minúcias e milhares de horas de prática atenta, meses
debruçados sobre umas poucas passagens e um entusiasmo
genuíno pelo detalhismo, sob risco de se amordaçar a
expressão com o excesso de preparo, o que
definitivamente não acontece nesta empolgante versão da
Tonadilla de Rodrigo.
[desanúncio] Uma versão que transmite um
senso de coragem frente ao perigo, com imensa gama de
dinâmica, rigor e vigor rítmico, e que, no minueto,
sublinha o lado delicado e cerimonioso do estilo
castiço de Rodrigo. A sensação de plenitude sonora é
alcançada por um perfeito controle vertical, onde os
graves aveludados servem como uma cama elástica onde a
sonoridade mais brilhante dos agudos pode pipocar.
BG
Mesmo em mitos como Segovia ou Julian Bream, um
violonista profissional não encontra dificuldade em
"ver" mentalmente a digitação, ou seja, a escolha das
cordas e dedos que são empregados em cada passagem, já
que a mudança de uma corda a outra é perceptível e a
mesma passagem tocada em posições diferentes soa
diferente. Não no Duo Abreu; eles conseguem esconder e
uniformizar de tal forma as dificuldades técnicas do
violão que suas digitações soam como uma charada.
CD BBC
Scarlatti: Toccata 3.45
[desanúncio] Uma obra que foi quase que uma assinatura do duo e demonstra sua consistência de ritmo, fraseado, articulação e senso de conjunto. Eles tocam de maneira pontiaguda e parecem se servir da potência máxima do violão sem, entretanto, jamais produzir uma nota troncha ou zumbida. Sem esquecermos que todas estas gravações foram feitas num curto espaço em que eles tinham pouco mais de 20 anos, seu senso de estilo em música barroca estava anos à frente de qualquer outro violonista da época.
[desanúncio] Na passagem central, Rameau
orienta o cravista a tocar cada nota com uma das mãos;
na transcrição, o violão I toca a primeira nota, o
violão II a segunda, o violão I a terceira, assim se
alternando sucessivamente, criando uma tapeçaria de
fios imperceptíveis.
BG Santorsola
Uma sincronia em tal grau exige não só muito trabalho,
mas um tipo específico de controle e memória auditiva.
As diferentes versões ao vivo das mesmas obras tocadas
por eles demonstram uma similaridade de concepção que
está fora do alcance da maioria dos mortais - as obras
estão plenamente resolvidas e soam como diferentes
takes da mesma execução.
BG
O último Lp do duo traz dois concertos para 2 violões e
orquestra, e aqui notamos a simplicidade de concepção e
a sonoridade resplandecente que eram suas marcas
registradas.
Concertos for 2 guitars:
Castelnuovo: 1o. mov. 6.04
[desanúncio] Poucas gravações com orquestra,
de qualquer instrumento solista, trazem esta aura
jovial; sem nenhum esforço aparente, parece que os
solistas estão sempre tocando "entre aspas". Inclusive
Sérgio, que tem grande interesse por tecnologia de
gravação, pessoalmente se envolvia com a produção e
fazia as edições dos próprios discos em casa.
BG
Mas este mesmo perfeccionismo que realiza o ideal
artístico pode se provar um empecilho. Eles
freqüentemente levavam vários anos para incluir novas
obras no repertório e gastavam um tempo precioso
resolvendo problemas técnicos e musicais talvez
imperceptíveis para ouvidos comuns. No início dos anos
70, Eduardo, dono de uma personalidade retraída, e
pouco afeito à atividade febril de um concertista
internacional, resolveu abandonar os palcos e se
dedicar à eletrônica. Hoje ele vive nos EUA e, segundo
o irmão, ainda é capaz de tocar como se nunca tivesse
parado.
LP
Villa-Lobos: Estudo no.1 1.20
[desanúncio] Uma gravação de facilidade
extraordinária e de textura clara e envolvente. Segundo
o irmão, Eduardo sempre foi, entre os dois, o que tinha
maior facilidade técnica.
BG Sor?
A partir de então, Sérgio prosseguiu brilhantemente com
uma carreira solo. Poucos violonistas na história
podem-se comparar a Sérgio Abreu em cultura musical,
fina percepção auditiva e meticulosidade de preparo.
Sua concentração é proverbial, e para ele não há
distinção entre trabalho e hobby: longas horas de
trabalho são horas de alegria por descobrir e produzir.
E isso é perceptível no seu único LP solo, que contém
gravações insuperáveis de Paganini e Sor.
Sérgio: Paganini e Sor
Paganini: 9.33
[desanúncio] Aqui ele transforma uma obra
que, em outras mãos, pode soar bastante prosaica em um
verdadeiro concerto para violão, com inventividade,
bravura, ardor e humor. Mais uma vez, o desejo de
encontrar a fórmula ideal procrastinou a realização
deste disco por vários anos e envolveu várias
experiências com diferentes instrumentos e salas de
gravação.
BG Sor
No início dos anos 80, Sérgio, insatisfeito com o que
considerava alguns problemas técnicos, resolveu tirar
alguns meses de folga para estudar sem pressões. Ele
sempre tivera um interesse mais que passageiro pela
construção de violões e, em suas turnês, visitava
luthiers e comprava madeira e ferramentas para o que
era, então, somente um hobby.
BG
Mas nesse período ele conseguiu fabricar seus primeiros
violões. Os poucos meses de folga foram se ampliando,
tornaram-se anos e, num dado momento ele se deu conta
que estava mais satisfeito fazendo violões que viajando
pelo mundo a dar concertos. Retirar-se dos palcos foi
uma decisão séria mas natural. Em suas próprias
palavras, "gostar de tocar e gostar de dar concertos
são coisas diferentes. Tocar, de uma certa forma, era a
parte mais fácil, mas aquela xaropada de aeroportos,
entrevistas, recepções, todos os dias, sem dormir
direito... tem gente que gosta exatamente disso, mas
quem não gosta, não dá pra forçar; foi como tirar um
sapato apertado".
BG -
Hoje Sérgio Abreu vive no Rio de Janeiro e é
internacionalmente reconhecido como um dos maiores
luthiers da atualidade. Seus instrumentos têm um timbre
melífluo e trazem as mesmas características de clareza,
projeção, limpidez e perfeição de artesanato que
encontramos no Abreu intérprete.
Eu mesmo sou o feliz proprietário de um violão Abreu
feito em 1986, que estamos ouvindo nesta gravação.
BG - Fabio Scarlatti
Para mim é um privilégio poder realizar algumas de
minhas gravações num instrumento feito por um dos
intérpretes que mais admiro, e que é um modelo de
inteligência, dedicação e solicitude. E é a ele que
agradecemos, por haver fornecido as versões em CD das
gravações que ouvimos neste Programa.
No próximo Programa, a arte de Kazuhito
Yamashita.

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