A Arte do Violão

Programas idealizados e apresentados por Fábio Zanon

Programa XVI - Turíbio Santos e Carlos Barbosa-Lima

A única coisa que se rivaliza com o futebol na identidade do Brasil para o mundo é provavelmente o violão. Ele veio ao Brasil com os portugueses na forma de vihuela e guitarra barroca e, depois da independência, sua participação na formação da identidade nacional foi se tornando cada vez mais forte.

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Na literatura brasileira, o violão é sempre posto nas mãos do boêmio, do capadócio, da pessoa de moral duvidosa. Mas já no início do séc. XX há algo no ar dizendo que o violão terá um papel glorioso a cumprir na cultura nacional. Américo Jacomino, o Canhoto, é provavelmente o primeiro concertista de violão do país, mas pouco o distingue dos não-tão-concertistas João Pernambuco e Quincas Laranjeiras. Esta distinção talvez nunca se torne muito nítida, felizmente; assim podemos ter o melhor de ambos os mundos: grandes concertistas de música clássica e grandes criadores de música instrumental brasileira.

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O violão clássico brasileiro levou tempo a conquistar um espaço internacional. Uma das mais fortes razões foi a falta de sistematização do ensino, que impediu muitos talentos de desabrocharem plenamente. Isto veio nos anos 40 e 50 com o uruguaio Isaías Sávio, que incluiu o violão nos cursos de conservatório do país, e que formou uma primeira geração de violonistas plenamente treinados no repertório clássico.
O primeiro concertista brasileiro a conquistar um espaço no exterior foi Laurindo de Almeida, que chegou aos EUA como membro do Bando da Lua de Carmen Miranda. Sua carreira pendeu para o jazz e será tratada num outro Programa mais adiante. Pode-se afirmar com segurança, então, que o 1o. violonista brasileiro a fazer uma carreira expressiva no exterior exclusivamente como violonista clássico foi Turíbio Santos.

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Ele nasceu no Maranhão em 1940 e mudou-se com sua família para o Rio de Janeiro, onde estudou com Antônio Rebello, um grande divulgador do violão clássico no Rio e um irmão espiritual de Isaías Sávio. Mais tarde ele também teve aulas com outro uruguaio, Oscar Cáceres. Sua estréia como concertista foi em 1962 e, no ano seguinte, o Museu Villa-Lobos convidou-o a gravar em estréia mundial os 12 estudos de Villa-Lobos.

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Turíbio, ainda menino, teve o privilégio de conhecer Villa-Lobos e travar conhecimento em primeira mão com sua criatividade torrencial, além de discutir aspectos da interpretação de sua obra. Esta sua primeira gravação, portanto, reveste-se de uma autoridade indiscutível e continua sendo uma referência para a infinidade de outras versões que vêm sendo feitas desde então.

LP Villa Lobos
2 Estudos C.8.00

[desa.] O intérprete já disse que Villa-Lobos é um compositor que se toca sozinho, que não requer a imposição de uma interpretação individual; ou seja, uma vigorosa execução daquilo que está escrito na partitura é suficiente para que essa música aconteça plenamente, uma visão que compartilho: nada mais xarope que uma interpretação preciosista de Villa-Lobos.
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Em 1965, Turíbio Santos tomou parte no Concurso Internacional da Radio France em Paris e obteve o primeiro prêmio. Este feito sem precedentes transformou-o numa celebridade dentro do meio musical brasileiro e marcou o início de uma guinada para a aceitação do violão como um instrumento de concerto pleno, algo de que ainda se duvidava dentro dos meios musicais mais conservadores. Esta é a gravação feita na Inglaterra logo após a vitória em Paris: realmente ele estava preparado de maneira impecável, e esta gravação feita ao vivo poderia tranqüilamente passar por um CD gravado em estúdio.

CD Turíbio em Paris

[desa.] As portas para uma carreira internacional estavam abertas: ele fixou-se em Paris por 10 anos como professor do Conservatório Municipal e tocou regularmente nos maiores centros musicais, freqüentemente à frente de importantes orquestras, ocasionalmente dividindo o palco com artistas do calibre de Yehudi Menuhim ou Christian Lardé. Gravou dezenas de discos no Brasil e na França, onde escutamos suas principais qualidades: uma sonoridade potente e algo áspera, que tende a explorar os efeitos mais elementares de contraste sonoro; um forte conceito de pulso, seguro e simétrico, que promove a unidade interpretativa; e um conceito de interpretação despojado, que não tenta se impor à música.

CD Spanish Music, faixa
Albéniz - Malagueña

De volta ao Brasil, Turíbio estabeleceu o curso de violão nas universidades do Rio de Janeiro e envolveu-se de corpo e alma na vida musical do país. Por muitos anos, ele foi o único violonista a tocar regularmente à frente das orquestras brasileiras e nas maiores séries de concertos, vencendo o preconceito e desbravando um caminho para violonistas mais jovens. Compositores como Edino Krieger, Almeida Prado e Marlos Nobre dedicaram-lhe obras de envergadura. Mais tarde, tornou-se diretor da Sala Cecília Meirelles e, depois do falecimento da viúva do compositor, diretor do Museu Villa-Lobos, onde tem feito uma administração excepcional; graças a ele, hoje está preservado e disponibilizado o legado escrito e gravado de nosso maior compositor.

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Turíbio continua sendo um solista bastante requisitado mas, mais recentemente, tem se dedicado a promover uma ponte entre o universo mais ortodoxo do violão clássico e a tradição do violão popular brasileiro. Uma boa parte de seus recitais são compostos exclusivamente de música brasileira; não só tem colaborado com artistas como Paulo Moura e Olívia Byington, mas tem também gravado o legado de compositores como João Pernambuco.

[desanuncio] Nos anos 30, o concertista uruguaio Isaías Sávio decidiu estabelecer-se como professor em São Paulo e operou uma transformação no ensino do violão no Brasil: ele formou centenas de estudantes, publicou métodos, criou uma cultura para o violão clássico e foi uma figura determinante para a inclusão do violão nos Programas de conservatório e universidade do país. Hoje, podemos dizer que praticamente todo estudante de violão no país é um neto ou bisneto de Isaías Sávio. Uma figura dinâmica e livre de preconceitos, ele estimulou seus alunos a desenvolverem um caminho próprio e muitos deles, como Luís Bonfá e Toquinho, mesmo tendo um embasamento no violão clássico, transformaram-se em ícones da música popular brasileira. No final dos anos 50, um de seus alunos começou a chamar a atenção por sua precocidade incomum: Antonio Carlos Barbosa Lima

BG: Isaías Savio - Prelúdio Pitoresco no.4, "Na Ilha Abandonada"
Ele nasceu em São Paulo em 1944 e começou a estudar violão muito menino por influência do pai. Aos 11 anos, conheceu Isaías Sávio que, encantado com sua habilidade natural, lhe disse: "se você estudar comigo, eu não vou te tratar como criança, mas como um estudante adulto especial". Seu desenvolvimento foi rapidíssimo e, com apenas 12 anos, fez o seu debut com estrondoso sucesso em São Paulo e no Rio. Em sua estréia na TV dividiu o palco com João Gilberto, que lançava a bossa nova, no Programa do Chacrinha. Pouco depois, realizou suas primeiras gravações, um verdadeiro milagre de precocidade.

K7 Barbosa Lima
Castelnuovo Tedesco Vivo e enérgico c.3.30

[desa.] Esta é uma gravação absolutamente incomum. Já seria excepcional somente pelo fato de Barbosa Lima ter apenas 12 anos na ocasião, mas consideremos as condições sob as quais foi feita: o Brasil, na época, ainda não tinha uma cultura para o violão clássico e não havia praticamente nenhum intérprete capaz de servir como modelo para o garoto, numa obra de tal complexidade; as condições de gravação eram primárias, tudo é tocado num único take; não havia violões de qualidade e o instrumento que ele usa é precário, uma verdadeira caixa de cebolas. Seria o equivalente a um pianista de 12 anos gravar uma sonata de Chopin, sem nunca ter visto outro pianista tocá-la, usando um piano de armário. As pequenas imperfeições inclusive dão um lustro de autenticidade, e mostram que não se tratava de um pequeno autômato treinado para reproduzir as idéias do professor. Somente a título de comparação, John Williams, que fez sua primeira gravação no mesmo ano com 17 anos de idade, mas ele já contava com um grande instrumento, uma infra-estrutura educacional e técnica e, claro, a orientação de nada menos que Andrés Segovia.

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Aos 15 anos ele já era um veterano dos palcos e exibia um dinamismo contagiante, uma técnica segura e flexível e uma incrível capacidade para aprender peças novas com rapidez e manter um extenso repertório. Ouçamos uma gravação que fez nos poucos anos mais tarde do concerto do compositor argentino Eduardo Grau. Nesta ocasião, ele teve de substituir um outro violonista impossibilitado de tocar e aprendeu a obra, para sua estréia, em apenas duas semanas.

Grau - Concerto em Modo frígio 3o. mov 6.00

[desa.] Sempre amparado por seu pai e pelo professor, Barbosa Lima tocou por todo o Brasil; no início dos anos 70, teve a chance de tocar nos EUA pela primeira vez e a recepção foi bastante positiva. Em pouco tempo ele já tocava também por toda a América do Norte e logo em seguida foi convidado a residir no país, como catedrático de violão na cidade de Pittsburgh e, mais tarde, fez parte do corpo docente da Manhattan School em Nova York. Sua primeira gravação norte americana teve enorme repercussão: pela primeira vez um violonista gravava um LP inteiramente dedicado a transcrições de sonatas de Scarlatti.

LP Scarlatti
1 ou 2 sonatas

[desa. e comentários] Neste período, ele estabeleceu suas credenciais como solista clássico, mas nunca pôs de lado suas origens e sempre incluiu algo do repertório brasileiro em seus Programas. Em 1970, temos um outro marco em sua carreira: a seu pedido, Francisco Mignone compôs seus 12 estudos para violão, a mais importante obra brasileira depois de Villa-Lobos. Barbosa Lima gravou este magnífico ciclo em 1976.

LP Mignone
Estudos no. 1 e 9 7.00c

[desa.] O trabalho de ampliação do repertório através de transcrições e colaboração com compositores prosseguiu e, em 1977, ele estreou a obra que, junto ao Mignone, inscreveu seu nome na história do violão: a sonata de Alberto Ginastera.

BG
Barbosa Lima esteve ao lado do compositor em todo o processo de composição deu sugestões para os efeitos instrumentais que cumprem um papel fundamental na construção da peça. Ginastera percebeu a ausência de uma obra contemporânea de maior envergadura e complexidade e no repertório de violão e escreveu uma sonata que é uma continuidade natural de suas sonatas para piano e uma das obras capitais do repertório, e um rito de passagem obrigatório para qualquer jovem virtuose. Ouviremos os dois últimos movimentos: o primeiro é uma longa canção de amor expressionista, de caráter sensual e ardoroso, e o segundo é uma toccata baseada no ritmo de malambo, onde o compositor emprega a técnica de rasgueado e golpe, típica do estilo pampeano de tocar violão, com estonteante violência e empolgação.

Tom Jobim, Gershwin