A Arte do Violão

Programas idealizados e apresentados por Fábio Zanon

Programa XV - Konrad Ragossnig, Oscar Ghiglia

O final dos anos 50 constituem um período de transição na história do violão. Andrés Segovia, o patriarca, por um lado imprimia no inconsciente do público a idéia de que o violão era um show de um homem só. Por outro lado, uma vasta massa de aficionados e amadores começava a construir um público fiel, informado e aberto para outras possibilidades, que já se materializavam nas incipientes carreiras de Narciso Yepes, Julian Bream e John Williams. Em vários países, o violão já fazia parte do curriculum dos conservatórios e universidades, profissionalizando o ensino do instrumento, o que intensificou a expectativa do público no que se referia à técnica e à proficiência musical. Revistas e programas de rádio especializados em violão apreciam por toda parte.

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A situação parodoxal que se criou, neste período, e que perdura até hoje, é a de que o violão é, por um lado, o instrumento mais tocado em todo o mundo, mas ao mesmo tempo, na esfera da música de concerto, ele ocupa uma posição periférica. A capacidade de mediação do violão é, infelizmente, mal explorada. As programações de orquestras sinfônicas ou de séries de recitais, em qualquer cidade, com razões pouco fundamentadas, raramente absorvem mais do que um ou dois solistas de violão por temporada.
O leal público de aficionados do violão passou, no final dos anos 50, a contornar a falta de oferta de maneira artesanal: criando clubes, sociedades, programas de rádio e festivais dedicados exclusivamente ao violão clássico, que hoje constituem, em todo o mundo, a base da carreira de muitos solistas.

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Este período também marcou a elevação do perfil dos concursos internacionais de interpretação musical, um fenômeno esquentado pelo clima de guerra fria e pela teledifusão de eventos esportivos. O violão, na tentativa de emular os outros instrumentos solistas, não poderia ficar de fora desta tendência por muito tempo e, em 1960, foi criado o primeiro grande concurso internacional de violão, em Paris. Este concurso anual, organizado sob a égide da Radio e Televisão Francesa, foi criação de Robert Vidal, um aficionado fanático e um dos maiores conhecedores de violão e violonistas que já houve. Ele já apresentava um programa regular de violão clássico, mais ou menos como este nosso, na Radio France, porém o Concurso, por ele comandado, tornou-se o evento mais esperado e comentado do calendário internacional de violão e lançou as carreiras de dezenas de jovens praticamente desconhecidos até ser desativado em 1993, quando o exemplo já havia sido imitado em todo o mundo e um verdadeiro circuito de fórmula 1 de concursos de violão estava instaurado. Entre os primeiros vencedores deste evento de importância incalculável, e aquele cuja carreira provocou reverberações que superavam o gueto do violão, foi o austríaco Konrad Ragossnig.

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Nascido em Klagenfurt em 1932, Ragossnig estava longe de ser um novato quando sua carreira foi acionada através do prêmio em Paris. Ele já havia feito estudos com Karl Scheit e com Segovia e já tinha sido apontado professor na Academia de Música de Viena. O prêmio em 1961 trouxe à luz um violonista de sólida cultura musical, ampla experiência em música de câmara e um natural equilíbrio de concepção que tinha muito a oferecer no cenário internacional, como já demonstram suas primeiras gravações.

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LP Guitar Recital
Torroba: Madroños

A arte de Ragossnig se define por uma sonoridade líquida e penetrante e por uma sensação de calma e serenidade que perpassa todas as suas interpretações. Nesta gravação de uma obra de Granados, difícil de imaginar sem o ardor da versão de Segovia, ouvimos um artista que deixa o argumento musical escorrer como o fio de um azeite finíssimo, sem pressa, sem suor e com uma clareza de expressão que só posso definir como puro alto astral.

K7
Granados: Danza Española no.10 c.4.30

[desanúncio] Não se pode dizer que Ragossnig tenha aberto um universo de novas possibilidades no violão. Ele se contenta em percorrer com maestria superior o caminho previamente aberto por outros violonistas. Ouçamos por exemplo esta interpretação de Villa-Lobos, um compositor que já estava na ordem do dia nos anos 60: a melodia é tratada com carinho e está sempre destacada, mas sem ansiedade; os acordes são ligeiramente espalhados, com um harpejo delicadíssimo, que soa como um cabelo bem penteado; as difíceis mudanças de posição da mão esquerda são manejadas imperceptivelmente; e as mudanças de sonoridade entre as seções são discretas, como convém ao caráter preguiçoso da peça.

Lp Guitar Recital
Villa-Lobos Prelude no 5 3.40

[desanúncio] Vários compositores, na maioria austríacos ou suíços, dedicaram obras a Ragossnig, mas poucas delas entraram para o cânone do repertório como aquelas feitas para Segovia ou Julian Bream. É uma pena. Ouçamos, por exemplo, este concerto de Bondon. É uma obra vigorosa, original, de orquestração fulgurante, de alto interesse rítmico, com um preciso manejo dos diálogos entre o solista e a orquestra e que sustenta um timing perfeito para o desenrolar de cada idéia. Seu ritmo seco e pontiagudo trai a influência de Darius Milhaud. Ragossnig toca com impecável virtuosismo - virtuosismo-virtude, que nunca chama a atenção para si próprio.

LP Bondon
Bondon: Concerto de Mars 3o mov 8.00?

[des.] Eu costumo encarar Ragossnig como uma contrapartida germânica para o historicismo britânico de Julian Bream. Eles têm muito em comum - ambos estudaram piano e violoncelo, ambos se interessaram por música de câmara, pelo repertório renascentista e barroco, e ambos, num dado momento, preferiram tocar o alaúde. Ele também trouxe à luz obras pouco conhecidas de autores de enorme importância histórica. Esta Chaconne, que é tocada com elegância e flexibilidade expressiva e raro bom gosto para ornamentação, foi escrita por Robert de Visée, um dos mais significativos compositores do barroco francês, professor de guitarra do rei Luís XIV.

LP La Guitare Royale
Robert de Visée: Chaconne 3.21

[dês.] Mas a maior parte da discografia de Ragossnig é dedicada à música de câmara.

BG
Ele fez duos com voz, com flauta doce e transversal, com cello, com cravo, duos e trios de alaúdes e de violões, e até com órgão. Parece absurdo? Escutem só este magnífico madrigal de Gabrieli. É uma obra sem instrumentação especificada; dois grupos escritos a 4 vozes são colocados em oposição antifonal. Um arranjo contemporâneo feito para 2 alaúdes sugeriu esta versão, onde a mudança de registros do órgão é eficazmente espelhada no controle de colorido do violão.

LP órgão -
Gabrieli - Lieto Godea Sedendo 5.01

[dês.] Suas gravações trouxeram à luz o pouco explorado repertório para conjuntos de alaúdes, que hoje é o arroz-com-feijão dos alaudistas historicamente informados. Vale notar que, como Julian Bream, ele toca um alaúde adaptado, com uma técnica mais próxima à do violão. Esta gravação ilustra a personalidade gentil e altiva, de um verdadeiro cavalheiro de eras em que boas maneiras e modéstia eram qualidades, que é Konrad Ragossnig.

LP 2 ou 3 Alaúdes
Anon: De la Trumba 2.50

[des.] Em 1963, o vencedor do primeiro prêmio do Concurso de Paris foi o italiano Oscar Ghiglia.

BG - Tarantela
Assim como Ragossnig, Ghiglia já era um músico de considerável experiência quando o prêmio em Paris o consagrou. Ele nasceu em Livorno em 1938; seu pai era um artista plástico e tudo levava a crer que ele seguiria o mesmo caminho. Conta ele que, num belo dia, seu pai quis fazer um retrato da família. Para acalmar o garoto de sete anos, que não queria ficar sentado na pose correta, o pai lhe deu um violão. Quando o quadro ficou pronto, o menino tinha posto de lado os pincéis e queria ser violonista. Ghiglia estudou na Academia de Santa Cecília em Roma e tornou-se o aluno favorito de Segovia nos festivais de Siena e Santiago de Compostela. Quando venceu o concurso de Paris, Ghiglia já estava sendo convidado por Segovia para ser seu assistente.

LP The Guitar in Spain
Albéniz: Zambra Granadina 3.49

[dês.] Nesta gravação fica fácil ver por quê Ghiglia tornou-se alvo da afeição de Segovia: uma sonoridade robusta, de coloração judiciosa e discreta, e que consegue criar um impacto singular com a dosagem certeira entre espontaneidade e estratégia estrutural, onde as belezas localizadas são revestimentos para um passo rítmico firme e um fraseado de notável plasticidade.

BG LP The Guitar in Spain - Sanz
O que mais impressiona em Oscar Ghiglia é a majestosa autoridade de sua concepção musical. O ouvinte pode até cogitar outras possibilidades interpretativas, mas é massacrado pela total coerência intelectual, pela convicção com que ele ataca a obra num andamento que parece funcionar em todas as situações. Todos os elementos são postos na balança e sofrem um inquérito, e o resultado é um veredicto, soa como lei.
Isto é particularmente evidente em suas interpretações de Bach. Nesta fuga, a simetria das entradas do sujeito principal é mantida com um minucioso controle do volume de cada nota. A articulação é mantida obsessivamente em toda a peça, o que produz uma delicada continuidade de fluxo na seção central. Ele soa como um tranqüilo passeio de barco num rio de águas límpidas, onde cada entrada do tema é apenas uma pedrinha jogada na água.

LP Oscar
Bach: Fugue c.6.40

[dês.] Outro compositor ao qual ele dedicou muita reflexão é o mexicano Manuel Ponce, um favorito de Segovia.

BG - Ponce
Ponce hoje parece ter conquistado um espaço cativo no repertório do violão, o que não deixa de ser surpreendente. Ninguém contestará a nobreza de sua inspiração, mas ele não é um original - pelo contrário, é um compositor bem acadêmico, que escreveu sonatas de feitio didático, onde os temas são apresentados de maneira estanque, o desenvolvimento, apesar de engenhoso, parece destacado do resto da peça e a recapitulação é algo convencional. Ghiglia parece ter encontrado a receita certa para esta música: correta proporção de andamentos e paciência para esperar o momento certo de se desencadear um único ponto culminante. Isto dá mais propósito à forma e o discurso passa a soar como um monólogo interior.

LP
Ponce: Sonata III 3o mov. c.6.00

[dês.]
BG Segovia

Em meados dos anos 60, Ghiglia parecia ter tudo para uma carreira primorosa, que extrapolasse o restrito circuito dos festivais de violão: a mão benevolente dee Segovia, um contrato com uma gravadora multinacional, técnica e cultura musical irretocáveis, mas algumas oportunidades foram desperdiçadas. Sua atividade em música de câmara foi pequena e inexpressiva. Uma personalidade extremamente independente levou-o a passos algo bizarros, como um período de residência no Taiti, que o isolou dos grandes centros musicais. E, principalmente, a intransigência ao trilhar um caminho que já tinha sido percorrido por Segovia: ele não explorou novos caminhos no repertório e a percepção do público resumiu-se a vê-lo como o embaxador post-mortem do mestre espanhol, uma avalição injusta para um artista tão original. A arte de Ghiglia, hoje, é apreciada principalmente nos inúmeros cursos que dá, professor inspirado que é, ao redor do mundo, e no conservatório de Basiléia, na Suíça, onde é o catedrático de violão.
[agradecimentos]