A Arte do Violão

Programas idealizados e apresentados por Fábio Zanon

Programa XIV - Leo Brouwer

Música costuma ser uma atividade intelectual independente, que obedece a seus próprios paradigmas, e onde o diálogo histórico com a técnica e a linguagem é preponderante. Eventualmente, acontecimentos de ordem política podem exercer uma influência determinante na orientação estética dos compositores, em casos como os de Gossec, Beethoven, Meyerbeer, Wagner ou Shostakovich. Na América Latina, temos o caso de Villa-Lobos e de sua guinada populista na Era Vargas. E em Cuba, um grande compositor e violonista pode ser esmiuçado à sombra dos eventos da Revolução Comunista: uma personalidade carismática, uma criatividade irrequieta, pujante e otimista e um talento único para a mediação entre a discussão acadêmica da música clássica pós-moderna e sua tradução para a massa do público: Leo Brouwer.

BG - Quinteto
Leo Brouwer pode ser apontado, com segurança, como o mais importante compositor-violonista da atualidade, legítimo herdeiro de uma tradição que começa com Luys Milan no séc XVI e passa por Sor, Giuliani e se amplia com Villa-Lobos, que parte do violão como base de uma produção sinfônica. Ele nasceu em 1939, filho de um cientista e violonista amador de origem holandesa e parente, por parte de mãe, do grande compositor Ernesto Lecuona. Inicialmente, ele aprendeu guitarra flamenca sob a influência de seu pai, e aos 12 anos passou a estudar com o grande pedagogo cubano do violão, Isaac Nicola, que havia sido aluno de Emílio Pujol.

BG - Scarlatti
Estas são palavras do próprio Brouwer: "Eu era louco pelo flamenco, mas com Isaac Nicola meu horizonte se ampliou e descobri um universo insuspeito entre as seis cordas. Este mestre e amigo não só nos colocou ante uma tradição, a espanhola, e ante o modo como esta se fundia com nossa identidade, mas seu mérito reside em haver-nos incitado a entender o violão como uma aventura intelectual, e a entender que a aparente humildade do violão escondia uma nobreza indescritível e infinita".
O respeito pela tradição acompanha Brouwer até hoje e pouco a pouco tem se transmutado numa estética de sincronicidade, em que os eventos musicais se sucedem numa linha contínua, mas se amalgamam de forma simultânea na consciência do compositor contemporâneo.

Bach - siciliana (sonata p/ violino BWV 1001) 3.05

[Desanúncio e comentários sobre a pronúncia e estilo] Desde o primeiro momento Brouwer se afirma como criador e inicia uma sucessão de obras para violão que se movem numa esfera correlata ao nacionalismo essencial de um Bártok. Esta pequena "Peça sem Título", uma micro-obra-prima, já demonstra a certeza da forma, a economia de material, o entendimento do potencial da música folclórica cubana na libertação da métrica quadrática tradicional, a perfeição na condução das vozes e a originalidade harmônica. Escrita quando Brouwer tinha apenas 17 anos, ela é de precocidade verdadeiramente mendelssohniana.

Brouwer - Pieza sin Titulo no. 1 1.20
Marcelo Kayath, violão Fleta

[Desanúncio] Brouwer diz que, na Cuba dos anos 50, o acesso às obras mais modernas era limitado e, desconhecendo obras de vanguarda para violão, ele quis compor aquilo que o instrumento não tinha, o equivalente violonístico das obras de Bártok ou Stravinski.

BG - Danzas Concertantes
A Revolução Cubana em 1959 reformulou, muitas vezes à força, todos os aspectos da sociedade. Brouwer, já considerado o maior talento jovem da composição cubana, e um ativo militante da revolução, ganhou uma bolsa de estudos para os EUA, onde estudou composição por um ano. De volta a Cuba, atualizado com a produção da vanguarda, tornou-se uma figura dominante na vida musical do país, definindo os rumos do ensino musical, participando de comissões orquestrais, de produção cinematográfica e de órgãos governamentais de cultura e educação. Como violonista e compositor, tornou-se artigo de exportação da nova Cuba e visitou festivais de música contemporânea como representante oficial - e nestes sofreu a profunda influência do aleatorismo e efectismo de Penderecki e Maderna. Suas credenciais de revolucionário permitiram-no estabelecer a experimentação de vanguarda na agenda da produção musical cubana. Segundo suas próprias palavras, "inovar é uma condição intrínseca a qualquer adepto da Revolução; restringir ou subestimar as massas é que é uma atitude burguesa".

BG - concerto para violino, c. 30 segundos
Os anos 60 e 70 marcam sua fase mais experimental, de um alinhamento multifacético com as várias vertentes de vanguarda, quando ele compôs obras orquestrais de peso e flertou com a música eletrônica. Este concerto para violino e orquestra, que estamos ouvindo, antecipa a inclinação dos compositores da década de 80 de produzir um argumento polissêmico através da fricção de elementos estilísticos heterogêneos. Após uma introdução de escrita descontínua, baseada em relações de tensão, a cadência inicial do violino nos remete ao universo dos grandes concertos românticos de Brahms e Bruch, que, por sua vez, prestam honras à grande escola do violino barroco italiano.

BG sobe
[desanúncio] Mas é nas obras de violão que a reputação internacional de Brouwer se firma, e com razão. Pode-se dizer que estas obras constituem uma perfeita introdução à produção contemporânea, por traduzirem o discurso muitas vezes hermético da produção dos anos 60 em termos palpáveis e acessíveis até ao ouvinte desavisado; esta tradução é efetuada em obras tecnicamente acessíveis, que prescindem de complicações de notação e privilegiam a improvisação controlada ao invés de uma desnecessária complicação métrica. No notável "Canticum", de 1968, ele faz uma síntese das possibilidades de organização intervalar encontradas em obras de compositores mais "densos". Nesta obra, ele se inspira na transformação da larva, dentro de um casulo, em borboleta. O potencial estético da borboleta é comprimido no acorde inicial, que concentra simultaneamente todas as relações intervalares desdobradas ao longo da peça: o semitom (ex.), a 7a. maior, que é sua inversão (ex.), o trítono (ex.), a 4a. justa (ex.), e a 6a. menor (ex.); combinadas, elas formam este acorde arquetípico (ex.). Estas relações são organicamente desfiadas, explorando várias possibilidades de articulação: o semitom melódico descendente (ex.) ou em volteio ornamental (ex.), a granulação das sétimas (ex.), a tremulação (ex.) e sua progressiva permuta em forma de deslizamento (ex.), de articulação dura (ex.) e de repetição espiralada (ex.). A primeira parte tem um caráter improvisatório e pontilhista, enquanto a segunda adquire um coração, na forma de um pedal pulsante (ex.). É difícil acreditar que uma obra que soa tão espontânea obedeça a um projeto ditatorial em que absolutamente todas as notas, sem exceção, pertencem a uma seleção pré-estabelecida de intervalos.

Brouwer - Canticum 4.01

[desanúncio] Brouwer retoma a idéia medieval da música como um reflexo da ordem cósmica em "La Espiral Eterna", de 1971, que deveria ser estudada como uma das obras modelares do século XX. Partindo de uma citação de um livro de astrofísica de Withrow, "pela primeira vez revelou-se nos céus a famosa estrutura espiral empregada com profusão pela natureza no mundo orgânico", Brouwer desenvolve em termos musicais a idéia de que as mesmas estruturas são encontradas no cosmos e nas criaturas vivas. A obra é dividida em 5 seções: na 1a, ouvimos este volteio de 3 notas (ex.), que, repetido à velocidade máxima, sugere um movimento espiralado (ex.), que parte do silêncio e que, na total ausência de ataque, sugere uma nuvem de gás. A primeira nota atacada marca o início da 2a seção, que, na sua materialidade, anuncia a presença dos materiais sólidos (ex.) em adição ao material gasoso, que gradualmente penetra no espaço microtonal (ex.). A 3a seção, composta unicamente de golpeios sobre o braço do violão, em ritmo propositalmente irregular, mantém o padrão de 3 notas no início (ex.) e sugere o início da atividade molecular que marca a aparição das formas de vida na seção 4. Somente um cubano poderia simbolizar o aparecimento de vida com um ritmo de dança: a seqüência de 3 notas do início é esgarçada em intervalos mais amplos - o que, de novo, sugere uma estrutura espiralada - e o intérprete improvisa com elas uma dança, aqui e ali interrompida por intervenções - que seriam, talvez, formas orgânicas - de complexidade crescente (ex.). Isto desemboca na 5a. seção, em que o material é aberto no limite da possibilidade do violão, usando a nota mais grave e a mais aguda (ex.) e levado à dissolução (ex.). E esta dissolução deixa a obra em aberto, sugerindo o eterno retorno do mesmo ciclo da natureza. É uma das raras obras contemporâneas que, executadas ao vivo, compelem o ouvinte a um total engajamento e o convencem de uma verdade oculta que está bem além de uma simples organização casual de notas.

Brouwer - La Espiral Eterna 7.29

[desanúncio] Nesta altura Brouwer, compositor e intérprete, foi adotado como o troféu da vanguarda européia de inclinação esquerdista. Luigi Nono e Hans Werner Henze visitaram Cuba e se encantaram com seu talento; isto abriu-lhe as portas do circuito internacional de música contemporânea e vários compositores escreveram obras que ele tocou e gravou para o selo alemão Deutsche Grammophon. Uma das mais notáveis é o recital para barítono, flauta, percussão e violão de Hans Werner Henze: "El cimarrón", baseado no relato autobiográfico de um escravo fugitivo, um raro caso de obra socialmente engajada que sustenta um escrutínio puramente musical.

BG - El Cimarrón c.3.00

[desanúncio] Ao lado de uma frenética atividade como compositor, Brouwer passou a fazer extensas turnês como intérprete, criando um amálgama muito pessoal de defesa da música experimental e seu complemento na música popular, de investigação do estilo histórico de interpretação de música antiga e de um personalismo e uma expressão apaixonada verdadeiramente românticos.
Nos anos 50, o movimento de investigação da interpretação histórica tomou corpo; pouco a pouco, o uso de instrumentos originais, de conceitos esquecidos de articulação e fraseado e de evidência histórica para a realização da ornamentação tomaram o mundo musical de assalto e levaram os intérpretes do repertório convencional a reverem suas posições. No violão, Leo Brouwer foi um pioneiro e um dos primeiros a adotar uma realização dessa nova filosofia da interpretação sobre o violão moderno. Ouçamos o que o próprio Brouwer tem a falar sobre sua interpretação da suíte em ré menor do compositor Robert de Visée:

Comentário 2.00c
Visée - Suíte em ré menor 4.00c

[desanúncio] Visée é um dos compositores supremos do barroco francês. Ele foi o professor particular de guitarra barroca do rei Luís XIV. A interpretação de Brouwer é extraordinariamente inventiva sem pôr de lado o aspecto de baile dos movimentos de dança; a ornamentação reflete o entusiasmo inicial do movimento de música antiga pela liberdade criativa, mas para os padrões atuais poderíamos dizer que é um pouco carregada demais, mas a seu crédito podemos dizer que alguém precisava abrir as portas bruscamente para que outros músicos pudessem se dar conta do vasto espaço a ser explorado.
BG - Fariñas
Já no repertório romântico, ele é um legítimo herdeiro da tradição espanhola de Llobet e Segovia, como demonstra esta sublime interpretação, de envergadura orquestral, de Manuel de Falla.

Falla - Pantomima (El Amor Brujo) 4.17

[desanúncio] Quase sempre ele traz uma visão de compositor ao repertório mais tradicional. Neste conhecido estudo de Villa-Lobos, ao invés de manter a simetria da progressão harmônica [ex.], ele valoriza uma relação secundária e interrompe a marcha harmônica [ex.], uma leitura imaginosa e que não se atém à notação de Villa-Lobos. Numa interpretação mais rigorosa, esta passagem soaria assim:
Zanon -
A interpretação de Brouwer, ao contrário, soa ao mesmo tempo rapsódica e analítica:

Villa-Lobos - Estudo no.7 2.11

[desanúncio] Importantes como foram estas inovações, é o trabalho de Brouwer com a linha mais extrema do repertório contemporâneo que o coloca na linha de frente do violão contemporâneo. Simplesmente não havia, nos anos 70, nenhum outro violonista capaz de tocar com tanto rigor e entendimento as obras de Maderna, Cristóbal Halffter, Ohana, Henze, Cornelius Cardew ou Bussotti. Para falar a verdade, à exceção de John Williams, eu não consigo pensar em nenhum outro violonista que conseguisse, nos anos 70, sequer decifrar a partitura desta obra de Juan Blanco, para violão e tape, onde Brouwer toca um dueto consigo próprio.

Juan Blanco - Contrapunto Espacial III-c 2.00c

[desanúncio] Esta multiplicidade de interesses se reflete em algumas de suas composições dos anos 70. Neste duo, o discurso entrecortado, onde os dois violões perseguem-se aleatoriamente, é subitamente interrompido por uma citação de Beethoven. Uma figura em harpejo, talvez uma vaga lembrança de uma canção popular, sobrevoa a textura como uma fantasmagoria, perpassando os dois violões de forma de-sincronizada e servindo como um fluido pano de fundo ao pontilhismo da boca de cena. O efeito é teatral: linguagens opostas convivem num ambiente orgânico, assimétrico, como se toda a história da música fosse ouvida de relance, num sonho, com um efeito quase psicodélico.

Brouwer - Per Suonare a Due 3.00

[desanúncio] No final dos anos 70, Brouwer teve um problema com uma de suas unhas da mão direita e, para manter seu apertado calendário de concertos, estudou todo um Programa sem usar aquele dedo. Infelizmente, ao final da temporada, o esforço afetou seus movimentos, o dedo se atrofiou e sua mão direita incapacitada encerrou, para sempre, sua carreira de violonista. Ele não se deixou abater e, além de incrementar a carreira de compositor, passou a dedicar-se, com igual competência, à regência. Isso coincidiu com uma guinada na sua orientação estética.

BG
De acordo com suas palavras, "com o tempo, eu percebi uma saturação da linguagem da chamada vanguarda. O que aconteceu é que este tipo de linguagem atomizada, seca e tensional sofreu, e ainda sofre, um defeito relacionada à essência do equilíbrio composicional, um conceito que está presente na história: movimento, tensão e seu conseqüente repouso ou relaxamento. Esta "lei de forças opostas" - dia-noite, masculino-feminino, yin-yiang, tempo de amar, tempo de odiar - existe em todas as circunstâncias da humanidade. A vanguarda sentia falta do relaxamento das tensões. Não há ente vivo que não descanse. Dessa maneira, eu fiz uma regressão na direção da simplificação dos materiais composicionais. Este é o que considero minha última fase, que chamo de "Nova simplicidade", e que abrange os elementos essenciais da música popular, da música clássica e da própria vanguarda. Elas me ajudam a dar contraste às grandes tensões".

BG sobe
Esta guinada a uma nova simplicidade informada pelo minimalismo, certamente um reflexo da época globalizada e do enfraquecimento das certezas etnocêntricas da cultura clássica, levou Brouwer a compor algumas de suas obras mais populares, como a Sonata e El Decameron Negro, além de mais 7 concertos para violão e orquestra. Como regente, ele já se apresentou frente a algumas das maiores orquestras do mundo e fixou-se como diretor musical da Orquestra de Córdoba, na Espanha, Para ilustrar esta fase, que se estende de 1980 até hoje, ouviremos um trecho de seu 2o. Concerto para violão, uma de suas obras mais representativas, onde ele exibe seu brilhantismo como regente.

Brouwer - concierto de Liege 10.00c

[desanúncio] Coberto de honrarias em Cuba e ao redor do mundo, vivendo na Europa mas representando seu país em vários organismos internacionais, hoje Brouwer é uma das figuras mais requisitadas do circuito internacional de violão, e recebe encomendas de obras novas o suficiente para mantê-lo ativo por décadas. Ao contrário de Villa-Lobos, que pouco a pouco se afastou do violão para se concentrar em obras sinfônicas, Brouwer situou-se como um líder, ao optar por enriquecer o papel do instrumento como um fundamental mediador entre a música clássica contemporânea e a esfera da música popular e da world music. Isso só foi possível pela emergência, nos anos 70, de um circuito internacional de festivais e sociedades de violão clássico, um fenômeno que será explorado nos próximos Programas.
[Agradecimentos - Ragossnig, Ghiglia, Ponce]