A Arte do Violão

Programas idealizados e apresentados por Fábio Zanon

Programa XIII - John Williams II

"Embora eu tenha morado na Inglaterra a maior parte de minha vida, no fundo eu me sinto mais australiano que inglês, e mais londrino que qualquer coisa. Há algo no caráter australiano que é uma mistura das melhores coisas dos americanos, de encontrar, descobrir, construir; uma atitude bem franca, lacônica. A Austrália tem vozes originais em arte e música sem aquela coisa horrível de tirar o chapéu e baixar a cabeça para outros países".
John Williams.

[BG Gowers]
Em 1971 já era considerado um dos grandes mestres do violão e era um veterano em turnês ao redor do mundo; sua companhia, CBS, deu-lhe um prêmio por ter vendido mais de um milhão de discos, um feito raro para um artista clássico que mal havia completado 30 anos. Não demorou muito para que ele percebesse que era mais divertido tocar em shows que ficar repetindo o Concierto de Aranjuez ao redor do mundo. Ele começou a se interessar pela guitarra elétrica e encomendou várias obras para este instrumento. Foi também o primeiro artista clássico a tocar no Ronnie Scott´s, o mais célebre clube de jazz de Londres. Para essa ocasião ele encomendou uma obra para o compositor de trilhas sonoras Patrick Gowers, que é um dos poucos exemplos de cross-over plenamente satisfatórios do ponto de vista artístico.

LP JW plays Patrick Gowers, lado A, início
Gowers: Chamber Concerto, início c.8´00
1971

[Desanúncio] E seu virtuosismo é um show à parte. Os círculos da música clássica ainda eram extremamente circunspectos e não absorveram essa guinada sem chiar. Segovia disse: "este rapaz está empenhado em destruir tudo aquilo que eu levei anos construindo". John Williams foi acusado de oportunismo, de ter-se vendido e ser viciado em publicidade. Em 1979, criou um grupo de rock progressivo, o Sky, que teve extraordinário sucesso, inclusive o privilégio de ser o único grupo de rock a tocar na Abadia de Westminster. Um crítico chegou a se perguntar: "o quê um músico que, tocando violão clássico, é um parâmetro de comparação em todo o mundo, consegue ver num material musical tão inconseqüente? Talvez a posição dos discos nas paradas de sucesso tornem essa questão irrelevante".

[BG Cavatina]

O que os críticos não percebiam é que a vida de solista de música clássica pode ser brutalmente solitária e paralisante. A atitude mais descompromissada e arejada dos músicos de jazz e pop e o caráter artesanal da música comercial exercem um fascínio inegável. Além de pope jazz, ele gravou várias trilhas sonoras para filmes de sucesso, entre eles Um Peixe Chamado Wanda, Grandes Esperanças e O Franco Atirador.

[BG] Esta Cavatina de Stanley Myers, o tema deste filme, chegou ao terceiro lugar nas paradas de sucesso.
Muitas destas experiências, que na época impulsionaram as vendas de seus discos, simplesmente passaram com o tempo; hoje em dia, encontramos com mais freqüência, re-editados em CD, as músicas mais convencionalmente clássicas do lado B destes LPs..
[BG]
Mas isso não quer dizer que ele tivesse abandonado a música séria, muito pelo contrário. Ele não só encomendou e estreou inúmeras obras contemporâneas de linguagem bem mais drástica, mas manteve várias colaborações de música de câmara num repertório tradicional, como esta com Itzakh Perlman.

Perlman & Williams, faixa 16
Paganini: Cantabile 3´38
1976

[Desanúncio e comentário] ele também participou da gravação das obras completas de Webern sob a regência de Boulez e da estréia de várias obras contemporâneas de peso, como esta Libra de Roberto Gerhard, uma obra extraordinária em que o equilíbrio sugerido no título é alcançado através de uma oposição entre a linguagem tonal e atonal e entre a sonoridade dos instrumentos cantantes de um lado e dos percussivos, dos quais o violão faz parte, do outro.

LP Castelnuovo/Arnold/Dodgson, lado B, final
Dodgson: Concerto no 2 para violão, presto c.4´00
Orquestra de Câmara Inglesa, Charles Groves
1977

[Desanúncio] Sem ser exatamente fácil, esta é uma obra acadêmica e que propõe poucos desafios ao ouvinte, mas ao mesmo tempo ele trabalhava com Leo Brouwer, o grande compositor cubano, numa obra bem mais experimental.

[BG]
[Desanúncio] Williams gravou mais tarde várias outras obras de Brouwer, inclusive o Concerto no.4, uma peça de sua fase neo-romântica. Dos muitos concertos escritos para John Williams, uma obra que certamente ficará no repertório de muitas gerações é a de Toru Takemitsu.

[BG Takemitsu]

Takemitsu é o compositor japonês mais conhecido no Ocidente, principalmente através de suas trilhas sonoras para os filmes de Kurosawa. Sua obra alia o ouvido afiadíssimo para um delicado colorido orquestral - influência francesa - a uma estética e uma filosofia tipicamente japonesas de se encarar a música como uma comunhão com a natureza: ela é organizada como um jardim japonês, em que os materiais sólidos se posicionam ao redor da fluidez aquática, e o passeio circular do observador revela novos ângulos de uma essência imutável. Este concerto para violão, oboé d´amore e uma vasta orquestra é uma homenagem ao pintor espanhol Joan Miró.

Takemitsu, faixa 12
Takemitsu: Vers, l´Arc-em-ciel, Palma 14´39
1989

[Desanúncio] Muitos desses experimentos de cross-over, de pop e música de cinema ficaram irremediavelmente datados, mas em uma entrevista ele afirmou que está muito mais interessado em manter uma atitude arejada com a música e ter liberdade para experimentar o que quer que atraia sua atenção em dado momento. Ele não grava para a posteridade e não tem o menor interesse pelo que as pessoas possam achar de seu trabalho no futuro.
[BG - world]
Pode-se dizer que isso é um pouco a filosofia do eu-também, que se volta para um tipo de som que está na moda, sem muita convicção artística. Claro que há uma possibilidade elevada de erro, porém alguns acertos históricos também ocorrem, como no caso de Barrios.

Barrios e Ponce faixa 9
Barrios: Cueca 3´26
1977

[Desanúncio] Barrios nunca deixou de ser tocado na América Latina, mas este LP de 1977 marcou o início de um enorme interesse internacional por Barrios, que hoje é um autor publicado e tocado em todo o mundo. John Williams é autêntico ao defender uma visão inclusiva das diferentes culturas musicais: para ele, a música clássica é somente uma linha particular de desenvolvimento que não tem de ocupar necessariamente uma posição central.
[BG]
É uma linha de pensamento que ele tem defendido desde os anos 60, muito antes da moda, imposta pelas grandes companhias, de se fazer do cross-over um caça-níqueis. Ele já chamou a atenção para a música asiática, australiana, africana, para o jazz e o pop, e nutre uma profunda admiração pela música das Américas. Ao invés de fazer coletâneas com peças já batidas, ele sempre procura novo material para seus discos e concertos, uma atitude arejada que deveria ser um exemplo para todos os estudantes.

Spirit of the Guitar faixa 1
Andrew York: Sunburst 3´32
1988

[Desanúncio] Nesta gravação ele já exibe o instrumento que tem usado nos últimos anos, feito pelo australiano Greg Smallman.
[BG - Koyunbaba?]
É um design inovador, que foge por completo da linha tradicional criada por Torres no séc.XIX, e usa um tampo finíssimo, esculpido em forma de tela, com um fundo pesado de compensado. É um instrumento de timbre fosco, mas que produz um considerável ganho de volume e atesta o fato de que o violão ainda é um instrumento em desenvolvimento. E é com este olhar para o futuro que terminamos a primeira série d´A Arte do Violão.
[Dedicatória e agradecimentos]