A Arte do Violão

Programas idealizados e apresentados por Fábio Zanon

Programa XII - John Williams I

Em 1958, um jovem violonista deu seu primeiro concerto profissional em Londres e Andrés Segovia, já uma lenda viva, escreveu o seguinte texto de apresentação: "Um príncipe do violão surgiu no mundo musical: John Williams , nascido na Austrália há 17 anos. Ele vive e estuda em Londres, e desde 1954 vem aperfeiçoando sua técnica instrumental na Academia Musical Chigiana em Siena, e atingindo rapidamente a maturidade artística. Deus colocou um dedo em sua testa, e não passará muito tempo para que seu nome se torne conhecido na Inglaterra e no exterior, com isto contribuindo para o domínio espiritual de sua raça. Constatei os méritos deste jovem e faço um desejo, do fundo do coração, que o sucesso possa acompanhá-lo por toda parte, como se fosse sua sombra."

[BG: Colibri]


O desejo de Segovia se concretizou numa dimensão que talvez nem ele esperasse, e não é para menos. Com a provável exceção de Ida Presti, é difícil imaginar um violonista tão maduro tão precocemente. Nas semanas seguintes a esse concerto, Williams gravou seus dois primeiros LPs, que já mostram os ingredientes do sucesso que o acompanha até hoje: já parece que nada é difícil o suficiente e tudo soa sem esforço, espontâneo. Outros violonistas também podem ter uma técnica impecável, mas Williams, ainda adolescente, já é o único infalível. Entretanto ele nunca dá a impressão de chamar a atenção para este fato, nunca se tem a impressão de que ele deixa de tocar com raça em favor da segurança. Estas variações de John Duarte conseguem a proeza de soarem perfeitas e casuais ao mesmo tempo.

The Virtuoso Guitar, faixa 13
John Duarte: Variações sobre um tema catalão, op.25 9´50
1958, Hernandez y Aguado

[desanúncio] Bem, poderíamos supor que depois do êxito dessa estréia fenomenal, ele se acomodaria confortavelmente como herdeiro do manto de Segovia como rei do violão clássico. Não poderíamos estar mais enganados. Este sucesso inicial lhe deu cacife para afirmar uma personalidade independente e uma visão musical antagônica à de Segovia. Numa entrevista para a BBC em 1993 ele disse: "esta recomendação me persegue até hoje e é mais um fardo que uma honra."

[BG - Harvey faixa 1 2´44 ou faixa 2]

"Parecia que tudo que eu havia aprendido, tudo que pudesse se aprender de violão, fosse através de Segovia. [...] Não foi o caso! Eu estudei com meu pai dos 4 aos 14 anos, e ele era um excelente professor - essa foi a parte mais importante de minha formação, não Segovia! Segovia foi uma grande inspiração, mas ele era um professor bem ruim, simplista e autoritário, o que não ajuda ninguém a se desenvolver como músico."
Este sucesso inicial lhe deu autoconfiança para desenvolver uma personalidade independente, quase antagônica à de Segovia, e já nas próximas gravações, num contrato com a CBS, podemos perceber que ele procura criar um repertório próprio que já pertence a uma estética totalmente diferente.

Rodrigo/Dodgson faixas 11 e 12 5´08
Dodgson: Partita no.1
Allegro con moto; molto vivace
1964, violão Fleta

[Desanúncio] Uma obra adstringente, stravinskiana, com uma interpretação destemida e incisiva. A recomendação de Segovia foi realmente infeliz e revela o abismo que se abria entre uma geração sisuda e preconceituosa e o espírito mais democrático e inclusivo de John Williams. Chamar o jovem de príncipe sugere a existência de um único rei, ele mesmo. E nunca passou pela cabeça de Williams estabelecer o "domínio espiritual" de sua "raça" - seja ela australiana ou inglesa, o que a mensagem de Segovia não deixa claro.
[BG] O traço mais cativante de sua personalidade é exatamente o contrário: ele é o tipo de pessoa que poderia ser nosso vizinho, nosso colega de escola ou de trabalho. Ele consegue ser despretensioso sem perder a consciência de seu extraordinário talento, um equilíbrio difícil de se alcançar quando se é uma celebridade aos 18 anos. Isto já era evidente quando ele fez suas primeiras turnês na União Soviética e nos Estados Unidos. Um souvenir desta primeira fase de sua carreira é a magnífica gravação que fez do Concierto de Aranjuez em Fliadélfia em 1965.

Rodrigo/Dodgson faixa 1
Rodrigo: concierto de Aranjuez, 1o.mov: allegro com spirito 5.55
Orquestra de Filadélfia, Eugene Ormandy
1965

[Desanúncio] Uma interpretação modelar e até hoje uma das melhores versões desta obra já gravada mais de 100 vezes. Aqui já notamos também a preferência de Williams por alterar o texto original em favor de uma execução mais fluente: o segundo tema é tocado uma oitava abaixo do original de Rodrigo, evitando o efeito estrangulado da região aguda do violão, e muitas das indicações de dinâmica não são respeitadas. Mas nunca temos a sensação de que ele faz isso para fugir da dificuldade, afinal tudo soa fácil e parece que ele ainda tem uma larga folga técnica. O que ele quer é que a música soe mais arredondada e natural. Se há uma pequena crítica é que muitas vezes a ginástica do solista faz parte do efeito dramático da obra, e essa sensação de perigo iminente está totalmente ausente de sua versão do Concierto de Aranjuez.

[BG - Gentilhombre?]

Seu colega Julian Bream o definiu como um músico apolíneo, onde o equilíbrio, a luminosidade e uma atitude sadia são os conceitos essenciais, opostos à visão do artista como um ente neurótico. Como ele mesmo já disse, a idéia de que o estudo é trabalho pesado é um ranço vitoriano. Para ele, a essência da atividade musical é que ela deveria ser um prazer. E isso é o que emana de suas inúmeras gravações dos anos 60 - um imenso deleite em ser capaz de se expressar e dominar tecnicamente uma sucessão de grandes obras.

Greatest Hits faixa 21
Paganini: Capricho no 24 6.53
1969

[Desanúncio] Poucos músicos fazem de suas gravações um retrato tão perfeito de sua atuação ao vivo como John Williams. Eu o vi tocar esta peça várias vezes, e, em uma ocasião, numa das variações que terminam na região sobreaguda, o seu dedo mindinho simplesmente escapou da corda e ele errou a última nota, espetacularmente. Silêncio no auditório. Um erro desses é um evento raríssimo num concerto de John Williams. Ele olhou para a platéia com uma cara de "nem eu acredito que isso aconteceu". Todo mundo começou a rir e ele prosseguiu, impávido, ainda mais perfeito que antes, até o final, quando o aplauso foi ainda maior que numa situação normal.
Dentro de um legado de cerca de 80 discos, todos igualmente imaculados do ponto de vista técnico, é difícil escolher as melhores gravações, mas eu acho que algumas de suas versões de música espanhola têm uma certa impaciência e tensão interna verdadeiramente empolgante.

Spanish Guitar Music faixa 1
Albéniz: Asturias 6.16
1969

[Desanúncio] Realmente, seu ritmo implacável e o cuidado com que gradua o crescendo de volume são inimitáveis, e a seção lenta definitivamente não é tocada para se escutar sonhando. De acordo com suas próprias palavras, "Segovia pensa a música verticalmente: há pouca tensão e propulsão no seu estilo. O som é maravilhoso e nada soa apressado, o que sempre foi e continua sendo um estilo maravilhoso. Mas minha sensação é de maior urgência, eu sempre tive esta tensão interna, não importa quão relaxante é a música".
[BG Bach?] Esta urgência também serve admiravelmente à música de Bach. Suas gravações das obras completas de alaúde representam uma virada na maneira como se encara Bach ao violão. Ele vê Bach como um compositor vigoroso, com um forte senso de pulso e consciência do substrato dançante da música barroca. Ao contrário dos violonistas do passado, ele não se debruça sobre a música, mas conquista o ouvinte pela propulsão.

LP Columbia presents... faixa 1
Bach: prelúdio BWV 1006 c3´30?

[Desanúncio] Outra característica em que ele se distingue de Segovia e de muitos outros solistas famosos em qualquer instrumento é a disposição em fazer música de câmara. Segovia jamais dividiria a ribalta. Williams sente-se mais feliz atuando como parte de um time, e usando seu prestígio para promover música que, sem ele, não teria muito espaço. Inicialmente suas colaborações foram algo convencionais, como neste esplêndido quarteto de Haydn.

LP Paganini/Haydn lado 1 faixa 1
Haydn: Quarteto op 2 no 2, allegro 4´13
1968

[Desanúncio] Mas pouco a pouco ele foi criando outras conexões, e a lista de seus parceiros aumentando. Ele fez duos com canto, com violino, com órgão, com cravo, duos de violões com vários violonistas conhecidos e não tão conhecidos, e uma célebre série de concertos com seu suposto rival, Julian Bream. Uma das combinações mais bonitas foi o duo com o grande cravista Rafael Puyana.

LP Music for guitar and Harpsichord faixa 4
Ponce: Preludio 3´30?
Rafael Puyana, cravo
1971

[Desanúncio] Londres devia ser um lugar muito estimulante para uma jovem celebridade nos anos 60.
[BG Tellemann] Seu círculo de amigos incluía Daniel Baremboim, Jacqueline Dupré e F´Ou T´Song, mas também os músicos de jazz, uma herança de seu pai - aliás, sua filha, nascida nesta época, é pianista de jazz. Pouco a pouco ele acompanhou a moda de dar concertos sem casaca, e, ao final dos anos 60, não só estava tocando vestido com uma camisa florida totalmente paz-e-amor [hoje em dia ele toca com uma roupa esporte e mocassim], mas também começou a se envolver em espetáculos de fundo político, por exemplo com a cantora dissidente grega Maria Farandouri ou com o grupo chileno Inti Ilimani. Mas estas experiências são assunto para o próximo Programa.
[Agradecimentos]