A Arte do Violão

Programas idealizados e apresentados por Fábio Zanon

Programa XI - A Geração dos Anos 20

Grandes virtuoses não se destacam por sistematizar sua arte para uso das futuras gerações. Paganini nunca deixou nenhum método; só podemos ter uma idéia de como Chopin e Liszt tocavam através de seus alunos; mesmo Tarrega, que foi mais um professor que um concertista, só nos dá pistas através de suas composições.
No século XX, a figura dominante do violão, Andrés Segovia, não deixou exatamente uma escola, apesar de muitos artistas mais jovens terem esmiuçado e imitado seus procedimentos técnicos e musicais. Ele não deixou nenhum método ou livro que revelasse seu pensamento musical e preservasse seu legado para as próximas gerações. Porém ele lutou para que se estabelecessem cursos de violão nas maiores escolas de música de todo o mundo e, com este intuito, ministrou inúmeros cursos ao longo de sua carreira e ajudou a projetar o nome de vários de seus alunos. É da primeira geração de discípulos de Segovia que tratamos no Programa de hoje.

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Apesar de sempre ter sido um instrumento extremamente popular, o violão é notoriamente carente de sistematização técnica. Até mesmo uma coisa simples como uma postura em que o instrumento não escorregue ainda não é consenso. Mas a partir dos anos 50, um violonista uruguaio, de talento analítico incomum, começou a estudar de uma forma mais científica os maiores problemas técnicos do violão, e escreveu uma série de obras didáticas que tiveram enorme repercussão em todo o mundo. Este foi Abel Carlevaro.

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Carlevaro nasceu em Montevidéu em 1919, e formou-se em harmonia e composição, mas estudou violão como auto-didata até 1937, quando encontrou Segovia, que residiu no Uruguai durante a II Guerra Mundial. Carlevaro estudou com ele por nove anos e, logo em seguida, embarcou numa carreira internacional. Suas gravações dos anos 50 atestam um alto grau de maturidade musical. Nesta gravação do intrigante Nocturno de Moreno Torroba, acompanhamos uma mente de compositor desvendando com calma a complexa estrutura, que conjuga amplas melodias, inconfundivelmente castelhanas [exemplo FAIXA 5: 3.54], com um tecido harmônico mutante, composto por empréstimos dos modos eclesiásticos [exemplo: 2.55], o impressionismo das escalas de tons inteiros [exemplo: 3.29] e dos acordes alterados [exemplo:4.44] e gestos da música tradicional espanhola [exemplo: 4.53].

Abel Carlevaro - Faixa 5 iniciando aos 2´54´´
Torroba: Nocturno c.4´00

[Desanúncio] Com a habilidade de um perfeito barman, Carlevaro acerta a dose em cada um dos elementos, trazendo à tona as dissonâncias, distendendo as terminações de frase, comprimindo os momentos rapsódicos e deixando as harmonias mais complexas ressoarem com naturalidade. Mas a grande contribuição de Carlevaro para o mundo do violão foi sua exposição de uma teoria instrumental. Sua detida observação da arte de Segovia, um violonista que tocava aparentemente sem esforço, levou-o a formular uma técnica que trabalha a favor do aparato neuro-muscular.
[BG] Para Carlevaro, não são as mãos e dedos que executam o trabalho pesado: partindo de uma postura estável e repousada, ele considera as costas, os ombros, braço, antebraço e cotovelo como um mecanismo integrado, em que cada uma das partes contribui para o equilíbrio gravitacional, tendo como meta a clareza de emissão e um mecanismo bem azeitado que não trai nenhum esforço desnecessário e praticamente elimina os incômodos chiados que anteriormente se consideravam parte intrínseca do som do violão. Ele foi um professor extremamente persuasivo e formou gerações de violonistas, especialmente na América do Sul. Seu impacto no Brasil foi incalculável, e vários de nossos mais influentes músicos e professores passaram temporadas no Uruguai se aperfeiçoando com Carlevaro. Ele mesmo manteve sua técnica intacta e estava ainda em plena forma quando faleceu na Alemanha, em 2001, aos 85 anos.
Esta gravação de um difícil estudo de Barrios é um retrato da arte de Carlevaro: sua técnica é, claro, irrepreensível, mas o que mais interessa é que ela lhe dá margem para tocar com um fraseado elástico e elegante.

Abel Carlevaro - faixa 3
Barrios: Las Abejas c.2´00´

[Desanúncio] Uma personalidade que é a antítese do erudito Carlevaro é a do borbulhante venezuelano Alirio Díaz.
[BG] Díaz nasceu no interior da Venezuela em 1923 e desde criança já tocava música folclórica ao violão, de ouvido, e pouco a pouco se aperfeiçoou e construiu uma bela carreira de âmbito local. Quando já era homem feito, estudou com Regino Sainz de la Maza no conservatório de Madri. Mais tarde freqüentou os cursos de Segovia em Siena, na Itália, e foi escolhido pelo mestre como seu assistente. A partir daí sua carreira internacional tomou corpo e chamou a atenção para seu virtuosismo extrovertido e descomplicado. Alírio Diaz sempre teve um repertório imenso, mas suas interpretações de música venezuelana sempre tiveram o poder de entusiasmar o público.

Eu costumo chamar Alírio Díaz de violonista-champanhe: tudo o que ele toca é direto, franco e espouca com um caráter alegre, dançante e celebratório, que é particularmente adequado para o repertório latino-americano e espanhol, como demonstra este Bolero de Eduardo Sainz de la Maza.

The Spanish Guitar - faixa 9
E Sainz de la Maza: Bolero 3.57

[Desanúncio] Longe de ser um artista superficial, o intérprete Díaz prima por uma sabedoria que brota da experiência e da intuição, e usa os recursos básicos do violão de forma totalmente desinibida. Aos 80 anos ele ainda está ativo, com uma técnica de extraordinária firmeza e flexibilidade, que é, na minha opinião, o verdadeiro modelo para a técnica colossal do australiano John Williams, que foi seu aluno, bem como de Segovia, nos cursos de Siena. Além de uma sonoridade robusta e masculina, eles têm em comum uma abordagem essencialmente rítmica, em que o pulso da música nunca é subserviente aos caprichos do fraseado e ao feitiço da sonoridade.

Solos de Guitarra - faixa 3 começando no 4´20´´
Lauro - Valsas nos 3 c.5´40´´

[Desanúncio] Uma figura controversa, mas de enorme popularidade, é a do espanhol Narciso Yepes.
[BG Ruiz Pipó, Asencio, Mompou] Nascido em Lorca em 1927, ele começou a tocar violão aos 4 anos de idade e formou-se pelo conservatório de Valencia, onde seu principal professor foi o compositor Vicente Asencio. Sob a orientação de Asencio, Yepes foi essencialmente um autodidata que desenvolveu um arsenal de inovações técnicas, muitas delas inspiradas na técnica da guitarra flamenca, que lhe permitiram extraordinária fluência em passagens rápidas e extenuantes. Sua estréia em Madri, tocando o Concierto de Aranjuez aos 19 anos, foi um retumbante sucesso e abriu as portas de uma carreira internacional. Não é difícil imaginar o impacto criado pelas suas versões atléticas e intransigentes do repertório espanhol. Sua interpretação do famoso Recuerdos de la Alhambra de Tarrega pode não ser das mais poéticas, mas seu tremolo é uma metralhadora de alta precisão.

O mundo da Guitarra Espanhola vol 1 - faixa 3
Tarrega - Recuerdos 3´

[Desanúncio] Yepes teve poucas aulas esporádicas com Segovia, mas ele decidiu traçar um caminho totalmente independente e a rivalidade entre os dois cresceu com o passar do tempo. Yepes soube administrar sua carreira de forma admirável.
[BG romance de amor] A trilha sonora do filme francês Jogos Proibidos, que inclui o notório Romance de Amor, tornou seu nome conhecido em todo o mundo. Entretanto, a maior contribuição de Yepes para a história do violão é a vasta lista de obras-primas que lhe foram dedicadas por compositores de primeiro escalão. Alguns dos melhores concertos para violão e orquestra foram escritos para Yepes, como este magnífico Concierto Levantino, do catalão Manuel Palau, onde ouvimos as marcas registradas de Yepes: uma sonoridade levemente metálica e anasalada, a preferência por uma articulação dura, de notas bem destacadas, e a alternância entre frases tocadas de forma indiferente com súbitas intrusões de algumas notas incrivelmente suculentas.

Manuel Palau - faixa 1
Concierto Levantino: allegro non tanto c.12´

[Desanúncio] É uma obra admirável, de sutil coloração impressionista, praticamente desconhecida até entre os violonistas. A partir dos anos 60, Yepes realizou dezenas de gravações para a companhia alemã Deutsche Grammophone, incluindo todos os maiores concertos de violão, que tornaram seu nome uma referência mundial. E aqui também começa um paradoxo: é o caso, talvez único, de um intérprete de inatacáveis credenciais que, inexplicavelmente, produziu uma sucessão de interpretações completamente inadequadas do ponto de vista técnico e musical. Até o ouvinte menos instruído pode perceber que há algo errado nesta interpretação do Choros no.1 de Villa-Lobos, por exemplo:
[BG Choros] Acho que já é o suficiente... Mas, claro, são as qualidades de Yepes que nos interessam, e não os equívocos. Também nos anos 60, ele projetou um novo instrumento, um violão de 10 cordas - 4 baixos a mais - que lhe permitiu novas possibilidades musicais e com o qual criou uma sonoridade característica, que explora a ressonância por simpatia das cordas extra.
[BG ??] Esta sonoridade singular inspirou o grande compositor Maurice Ohana a escrever várias obras-primas, entre elas aquele que é um dos maiores concertos para violão, os Três Gráficos. Ohana é um compositor judeu nascido em Gibraltar, mas de educação francesa e que se considerava meio africano, meio andaluz. Nesta obra ele desenvolve aspectos essenciais do ritmo e da trágica intensidade da música flamenca, que é sublinhada pela interpretação rígida, quase brutal de Narciso Yepes.

[LP, faixa 3]
Ohana: 3 Graficos: Grafico de la Bulería y Tiento 5´32

[Desanúncio] Aquí, já em 1957, estamos a anos-luz do universo estético de Segovia, que se tornou um crítico ferrenho das idéias de Yepes. Uma das gravações mais interessantes dos anos 70 é a que Yepes fez das Canções Populares Espanholas de Manuel de Falla, com a notável mezzo-soprano Teresa Berganza, onde ele explora com inteligência os recursos de seu instrumento de 10 cordas.

[LP - faixa 3]
Falla: Asturiana 2´01´´

[Desanúncio] Yepes faleceu em 1997, mas um violonista que continua a propagar os valores oitocentistas inspirados em Segovia é o argentino Manuel Lopez Ramos.
[BG] Lopez Ramos nasceu em Buenos Aires em 1929 e cedo desenvolveu uma brilhante carreira confinada à América do Sul. Em 1952, depois de uma estréia de sucesso, fixou-se na Cidade do México, onde ainda vive, como catedrático de violão na Universidade, e, a partir dali, sua fama internacional cresceu, especialmente nos EUA. Sem ser exatamente um aluno, ele se inspirou na arte arrebatada de Segovia e criou um estilo pessoal caracterizado por uma sonoridade cálida e intimista e uma irresistível sinceridade de expressão, como demonstra esta gravação ao vivo de Ponce, um compositor com quem tem especial afinidade.

Manuel Lopes Ramos - faixas 4 e 6
Ponce Sarabande e Giga 6´30''

[Desanúncio] Uma gravação realizada ao vivo em Belo Horizonte em 1958. É interessante saber que Lopez Ramos, assim como Carlevaro e Narciso Yepes, era um visitante assíduo do Brasil nos anos 50, 60 e 70, um período em que os promotores de concertos pareciam dar maior atenção ao violão e ao seu infinito potencial na formação de um público para a música clássica.
[Agradecimentos] No próximo Programa, a arte de John Williams.