A Arte do Violão

Programas idealizados e apresentados por Fábio Zanon

Programa X - Julian Bream: 1979-1995

ADIVINANZA DE LA GUITARRA
a Regino Sainz de la Maza

Na redonda
Encruzilhada,
Seis donzelas
Bailam.
Três de carne
E três de prata.
Os sonhos de ontem procuram-nas
Porém têm-nas abraçadas
Um Polifemo de Ouro.
A guitarra!

No Programa de hoje, as gravações mais recentes de Julian Bream

[BG - Music of Spain - faixa 17]

Este é o poema Adivinanza de la Guitarra, de Garcia Lorca, dedicado a Regino Sainz de la Maza, que já ouvimos em Programas anteriores, mas que sugere o projeto de música espanhola que Julian Bream desenvolveu nos anos 80. Ele havia gravado várias obras espanholas nos anos 50, de uma forma algo convencional. Depois de haver re-habilitado os compositores do renascimento e do início do romantismo, e enriquecido o repertório com obras-primas contemporâneas, ele decidiu fazer, já em sistema digital, uma exploração sistemática de 400 anos de música espanhola. Ele arrematou o projeto com uma série de Programas para o Canal 4 da TV britânica que teve imenso sucesso. Tipicamente, ele evitou os clichês e iniciou a série com uma gravação estupenda dos mestres do renascimento espanhol, que, em teoria, são o ponto de largada para qualquer estudo sério do repertório do violão, mas que, ainda hoje, são negligenciados. Estas obras são escritas para vihuela, um instrumento aparentado ao violão, também em forma de oito e com seis cordas duplas, que teve um curto período de popularidade em meados do séc. XVI. Elas têm um valor histórico incalculável; por exemplo, Luys de Narváez é o primeiro compositor documentado que publicou obras em forma de tema com variações, ou diferencias, como eram chamadas. Ao lado de Narváez, o grande mestre do período é Luys Milan, um artista de imaginação ilimitada. Seu livro El Maestro, de 1536, é um tratado de instrução de vihuela que traz 40 fantasias em que ele explora genialmente as múltiplas possibilidades de combinações imitativas e de livre improvisação; ele é um precursor na criação de uma linguagem puramente instrumental. Ouviremos dele a Fantasia no. 22.

[fita]
Milan - Fantasia XXII - 1979 3.00?

[Desanúncio] Quanto à interpretação de Bream, ele quase nos faz crer que não há outra maneira de se tocar esta música. O cuidado com que ele molda as seções imitativas e prepara as explosões de entusiasmo e a clareza com que caracteriza as seções da obra sem prejudicar a fluência do discurso são realmente tudo o que esta obra precisa, apesar dele não usar um instrumento autêntico e tocar com uma técnica moderna.

[BG? Spanish Guitar Recital faixa 14]

O cenário do violão nos anos 70 ainda contava com um Segovia em plena atividade, mas alternativas de um modo mais objetivo e atlético de se tocar o repertório espanhol já se cristalizavam com John Williams ou Narciso Yepes. Entre os dois extremos, a arte de Julian Bream é a da síntese. Suas explorações de Albeniz, Granados, Tarrega, Turina e Rodrigo primam por uma plasticidade extraordinária, aliando rigor, fantasia e um alto teor evocativo. Tive a satisfação de ouvi-lo várias vezes ao vivo tocando Granados, e com esta música ele carregava o público na palma da mão. Sua transcrição, para início de conversa, é muito mais rica, detalhada e rigorosa que as de seus colegas; no que se refere à agilidade, ele nem chega a impressionar, mas o aroma schubertiano que se desprende de sua versão, às vezes lânguido e melancólico, outras vezes altivo e cavalheiresco, faz desta uma das gravações mais belas do século.

Spanish Guitar Recital - faixa 10
Granados: Valses Poéticos - 1982 - Romanillos 12.26

[Desanúncio] Enquanto alguns artistas se contentam em tocar mais forte ou mais suave, Bream trabalha com uma gama de sensações mais complexa: freqüentemente temos a sensação de que a música está mais próxima ou mais distante, mais quente ou mais fria, mais dura ou mais maleável. Melodias não são exatamente ressaltadas: mais parece que estão sendo declamadas. Acompanhamentos não são somente suaves: são sussurrados. Vibratos podem sugerir uma leve brisa ou um tremor de raiva. O ouvinte praticamente vê o rubor dos pimentões e dos gazpachos e sente o aroma do vinho de Rioja nesta interpretação de Moreno Torroba:

Twentieth Century Guitar II - faixa 10
Torroba: allegro da Sonatina - 1983 - Romanillos 3.52

[Desanúncio] Aqui ouvimos um artista no auge de sua maturidade técnica e musical; notamos, entretanto, um aspecto técnico que ele deixa passar, que são os chiados de corda. Hoje em dia, muitos violonistas já desenvolvem uma técnica de mão esquerda que praticamente elimina este efeito bastante intrusivo; basicamente temos de levantar o dedo para mudar de posição, o que é simples, mas bem trabalhoso. Uma vez eu lhe perguntei se isso não o incomodava, e ele me respondeu que sim, e muito, mas ele tem como prioridade máxima a continuidade das linhas, um legato perfeito, e que, quando ele toca do jeito que "soa" certo, não consegue eliminar os chiados porque a música "pede" que ele deslize entre as notas. Sinceramente, em interpretações superlativas como estas, isto é só um detalhe bobo. Bream cria um personagem vivo à nossa frente, com cenografia completa. Escutem só a Guajira, de Pujol, uma interpretação que sugere os heróis picarescos da tradição literária espanhola. Eu me divirto tanto com esta gravação que a escolhi como tema de abertura de nosso Programa. Isto é uma festa.

Music of Spain - La Guitarra Romantica - faixa 9
Pujol: Guajira - 1990 - Romanillos 4.23

[Desanúncio] Nos anos 80, Bream sofreu um acidente que quase encerrou sua carreira: ele estava dirigindo seu carro com o braço apoiado na porta e, ao fazer uma curva por baixo de um pontilhão, perdeu a direção e esmagou o cotovelo direito numa pilastra de concreto. Ele passou por uma operação delicadíssima e ficou fora de ação por toda uma temporada, mas, felizmente, retomou sua carreira logo em seguida. Ele também encerrou seu contrato com a RCA e passou a gravar pela EMI. Seu primeiro disco na nova companhia incluiu sua 4a gravação do Concierto de Aranjuez e sua 2a gravação do concerto de Arnold, que havia estreado nos anos 50. Além da tecnologia digital, há uma razão muito forte para estas regravações: a parceria com Sir Simon Rattle, que consegue cavar uma riqueza insuspeita nestas obras. Claro que Bream está em grande forma nesta obra extremamente difícil, mas repare no vigor e riqueza de detalhes da realização orquestral. Isto é música de câmara em larga escala.

Julian Bream - Simon Rattle - faixa 1
Arnold - Concerto 1o mov allegro - 1993 6.27
City of Birmingham Symphony orc. Simon Rattle

[Desanúncio] Aliás uma obra riquíssima que mereceria ao menos uma estréia no Brasil. Eu tive o sumo privilégio de tocar várias vezes para Julian Bream em masterclasses neste período, e o impacto de sua imaginação musical foi profundo e determinou muitas de minhas escolhas artísticas. Uma grande lição foi a sua total intransigência. Várias vezes gastamos muitos minutos repetindo somente um acorde, buscando o timbre, articulação e toque ideais; "mais ou menos" simplesmente não serve. Também notei que, ao se aproximar da terceira idade, sua inclinação para um caráter elegíaco e um certo azedume estavam se acentuando. Sua escolha de repertório reflete este caráter, e ele gravou várias obras carregadas de reminiscência e de tons escuros. Na Sonata de Brouwer, ouvimos um cuidado quase neurótico com cada som: a música é estática; cada nota é polida ao extremo, mas soa estranhamente distante. Parece um pianoforte ouvido em um sonho.

Nocturnal - faixa 15
Brouwer: Sonata - Sarabanda de Scriabin - 1993 4.03

[Desanúncio] Uma interpretação de beleza glacial e profundo estranhamento. As gravações de Bream são de tal abrangência e qualidade que nos faz esquecer que seu repertório era muito maior. Eu o vi com freqüência tocar Ponce, Tansman, Regondi e Piazzolla, compositores que nunca gravou. Seu último CD, de 1995, revelou Antonio José, um dos mais promissores compositores do modernismo espanhol, assassinado ainda jovem durante a Guerra Civil. Sua sonata, escrita para Sainz de la Maza, voltou a ser tocada nos anos 90 e Bream realizou uma gravação majestosa; aliás, a engenharia de som deste CD capta seu toque com mais fidelidade que qualquer outro, e vocês podem perceber que não é exatamente um som limpinho. Aqui nós ouvimos um ligeiro click das unhas, que dá mais contorno e definição à sonoridade.

Sonata - faixa 1
Antonio José - Sonata - allegro moderato - 1995 6.41

[Desanúncio] Ao terminar este disco, ele sentiu que a missão estava cumprida. Apesar das homenagens por toda parte, graus de doutor honoris causa, etc., ele tem sentido um certo desencanto com a crescente comercialização do mundo da música clássica. Gradualmente ele foi limitando sua atividade e, em 2001, deu um recital no Wigmore Hall em Londres, um reduto do bom-gosto e do bem-pensar, em comemoração aos 50 anos de sua estréia naquela sala. Foi uma noite memorável, onde, pasmem, ele estreou duas obras, e desde então o mundo está mais pobre porque o músico que trouxe o violão para o primeiro mundo intelectual decidiu pendurar o chapéu. Não é por acaso que esta série deu a Julian Bream um espaço igual ao de Segovia; ambos abriram avenidas na história do violão, e ficamos na esperança de que outros artistas venham a dar continuidade a este magnífico plano urbanístico.
[agradecimentos e anúncio]