A Arte do Violão

Programas idealizados e apresentados por Fábio Zanon

Programa IX - Julian Bream II

"Homem curvado sobre o violão,
Como se fosse foice. Dia verde.
Disseram: "É azul teu violão,
Não tocas as coisas tais como são".
E o homem disse: "As coisas tais como são
Se modificam sobre o violão".
E eles disseram: "Toca uma canção
Que esteja além de nós, mas seja nós,
No violão azul, toca a canção
Das coisas tais como são".

[BG]

Estes versos são a seção inicial do poema "O Homem do Violão Azul", onde Wallace Stevens explora o paradoxo entre a realidade artística e a realidade exterior; eles, entretanto, poderiam perfeitamente se aplicar à arte de Julian Bream. Uma arte de ilusionismo, de um violão que sugere uma envergadura e uma profundidade que estão nele, mas ao mesmo tempo além dele. Até os anos 60, as gravações de violão costumavam ser compilações de obras de vários períodos, ao gosto do intérprete, um reflexo da estrutura dos Programas de recitais. Bream inaugurou, no violão, a tendência das gravações que cobrem áreas específicas do repertório, muitas vezes explorando somente um compositor. Isto lhe permitiu uma imersão total no estilo em questão e a busca de um idioma interpretativo que se adequasse a ele. A música renascentista inglesa lhe é especialmente querida; ele gravou as maiores obras deste período, e o compositor que visitou com maior freqüência foi John Dowland. Dowland é um autor cujas obras alternam empolgação com momentos de profundo pessimismo e melancolia. Os especialistas em música antiga tendem a uniformizar este contraste, mas Bream faz com que cada peça tenha uma voz própria; em especial nas pavanas e fantasias ele consegue descer ao fundo do poço e criar versões memoráveis. Ou como diz Wallace Stevens, "Ser o leão no alaúde/ Ante o leão preso na pedra."

Julian Bream plays Dowland - FAIXAS 13 e 20
Dowland: Sir Henry Guilforde´s Almaine -1967 - Goff 1.48
Dowland: Forlorne Hope Fancy - 1976 - Rubio 4.01

[Desanúncio] Estas gravações de Bream ao alaúde tiveram extraordinária acolhida e, na Inglaterra, disputaram a popularidade com outros hits da música antiga como as 4 estações. Ele convidou seus luthiers favoritos, Rubio e Romanillos, a trabalharem num atelier que ele mantinha na sua casa de campo. Por mais de 25 anos ele trabalhou com o mesmo produtor e o mesmo engenheiro de som, e gravou seus discos na Wardour Chappel, uma capela a poucos quilômetros de sua casa. Não surpreende que cada uma dessas gravações seja um clássico. Cada uma das linhas do contraponto é burilada ao extremo, o soprano tem som de soprano, o tenor tem som de tenor, o baixo de baixo, e ele consegue manter ao mesmo tempo individualidade e interdependência, como nesta Fantasia que ouviremos agora:

Fita No.14
Francesco Canova da Milano: Fantasia 'La Compagna" -1972 - Rubio c.3.00?

[Desanúncio] Um complemento a esta atividade foi a colaboração com o tenor Peter Pears, o companheiro do compositor Benjamin Britten, com quem Bream pôde dividir sua paixão pela música elizabetana. Ouçam a discrição com que Bream sublinha a ambigüidade métrica desta linda canção de Dowland:

Elizabethan Lute Songs - faixas 12 e 13
Dowland: Shall I sue? 1970 - Rubio 1.57

[Desanúncio] Julian Bream também montou o seu próprio "consort", especializado em música elizabetana, um dos primeiros grupos do gênero; nos anos 70, deu vários recitais de música e poesia, com a grande atriz shakespeareana Peggy Ashcroft. Sua fama parecia residir nos dois extremos da música renascentista e da contemporânea, mas nos anos 70 ele começou também a investigar a música original para violão do séc XIX e, graças a este esforço, hoje há uma re-avaliação do papel histórico dos compositores da época de ouro do violão. Ninguém negará o papel central da grande tradição das sonatas e sinfonias de Haydn a Brahms, porém as fantasias, obras de forma variável, além de serem o retrato de uma época, tiveram um papel fundamental na disseminação do processo de transformação temática que culminaria na forma cíclica de Liszt e Franck. A advocacia de Bream revelou a plena estatura de um mestre como Giuliani: ele desfia a música como se fosse o enredo de uma ópera, desde a atmosfera solene da introdução, caracterizando cada tema como se fosse um personagem e desencadeando uma tempestade no final. A homogeneidade de fraseado é algo notoriamente difícil de se conseguir no violão: cada corda tem um colorido próprio, e mesmo tocar uma simples escala pode ser um problema insolúvel, já que o violão impõe uma mudança de cor e de articulação que muitas vezes não pertence à música em um plano ideal. [exemplo?] Bream não só faz com que a técnica do violão desapareça, mas consegue absoluto controle de dinâmica e agógica com um colorido atordoante, mas perfeitamente controlado. Ouça, por exemplo, como ele gentilmente empurra este tema para diante com um "coice" na anacruse [5´10´´]; ou como ele "orquestra" este outro, à maneira de Rossini, pontuando a mudança de timbre entre as frases com acordes de um colorido intermediário [11´05´´]. Estas são estratégias típicas de artistas como Michelangeli ou Horowitz, e colocam Bream no panteão dos maiores artistas do século.

Classic Guitar - faixa 8
Giuliani: Rossiniana no.3, op.121 1974 - Romanillos 14.20

[Desanúncio] Acho que esta execução enterra para sempre a idéia de que Bream teria uma técnica insuficiente. Continuando sua sistemática exploração do cânone do repertório do violão, Bream gravou a obra completa de Villa-Lobos nos anos 70. Como todo grande artista, ele consegue abreviar o abismo cultural e produziu uma interpretação de estilo perfeitamente convincente, que lhe valeu, por parte do governo brasileiro, uma condecoração com a Medalha Villa-Lobos. Como exemplo, o 3o movimento do concerto, em que ele equilibra o lirismo derramado da introdução a um ritmo estrito e um caráter rigoroso no rondó.

Villa-Lobos - faixa 3
Villa-Lobos: concerto, 3o. mov.allegretto non troppo - 1971 - Hauser 4.24
London Symphony, Andre Previn

[Desanúncio] Ao mesmo tempo em que cobria o repertório tradicional, Bream estreava ao menos uma obra de larga escala por temporada. A lista de compositores que escreveram para ele soa como um quem-é-quem da música dos anos 60 e 70, e hoje estas obras ocupam posição central na história do violão e na discografia de Bream. Nas obras de Walton, Berkeley, Maxwell Davies, ou Henze, ele destilou sua experiência musical, produzindo interpretações ao mesmo tempo empolgantes do ponto de vista instrumental e intelectualmente complexas e equilibradas. Comparemos a célebre gravação das Bagatelas de Walton com sua versão orquestral.

Fita
Walton: Varii Caprici (cerca de 30 segundos)


Dedication - Faixa 6 e 8
Walton: Bagatelle no 1 e 3 - 1981 - Romanillos 3.35
2.13

[Desanúncio] Importante como foi a contribuição britânica, talvez a maior obra escrita para Bream tenha sido a Royal Winter Music de Hans Werner Henze. É uma sonata de 30 minutos em seis movimentos que ilustram personagens das tragédias de Shakespeare, que atende o pedido de Bream de uma obra de proporções e ambições estéticas comparável às últimas sonatas de Beethoven. O primeiro movimento ilustra cena inicial do Ricardo III, onde Gloucester monologa sobre sua incapacidade de se deleitar com a vitória e os prazeres mundanos e sua resolução em se tornar um vilão devido à sua deformidade física. O estilo de Henze, um genuíno herdeiro da tradição germânica representada por Beethoven e Brahms, alia um atonalismo livre informado pelo desenvolvimento motívico clássico, e é perfeitamente caracterizado nesta dramática e majestosa interpretação de Julian Bream.

Dedication - faixa 12
Henze: Royal Winter Music - Gloucester - 1981 - Romanillos 6.16

[Desanúncio] Muitos intérpretes especializados se satisfazem em executar música contemporânea com precisão e um mínimo compromisso pessoal, mas são interpretações densas, buriladas e poderosas como esta as que verdadeiramente podem trazer a música contemporânea para uma posição de maior prestígio no meio musical. Julian Bream não havia gravado o repertório espanhol por cerca de 20 anos e já era hora de se preencher este buraco em seu catálogo. Isto ele fez nos anos 80 com um projeto de maiores proporções, e é o que ouviremos no próximo Programa.
[Agradecimentos]

Extra: concerto de Bennett 3o mov.