Programa VII - Duo Presti-Lagoya
Tanto o alaúde quanto o violão são instrumentos gregários, e, desde o Renascimento, há uma tradição da escrita para conjuntos de violão. No caso dos duos, havia duas categorias de composição, a de duos "iguais", em que as partes têm a mesma dificuldade, e "desiguais", provavelmente escritos para o professor tocar com seus alunos. No séc.XIX e no início do séc XX, vários violonistas importantes tocaram ocasionalmente em duo, notavelmente o mestre de todos, Fernando Sor, com Dionísio Aguado na Paris do início do Romantismo; nesta série já ouvimos Emílio Pujol em duo com sua mulher Matilde Cuervas. Entretanto o primeiro duo profissional, em período integral, onde ambos membros abdicaram de suas carreiras solo em favor de um ideal de música de câmara, em que a busca primordial é a anulação da individualidade em favor de um resultado integrado, foi movido por uma paixão de folhetim: o duo de marido e mulher de Ida Presti e Alexandre Lagoya.
BG
Podemos dizer que o que Andrés Segovia representou
para a consolidação do violão como um instrumento
solista, o duo Presti-Lagoya representou para o duo de
violões - uma formação de proporções clássicas, com um
repertório substancioso e com o potencial para um
trabalho de unificação interpretativa comparável a um
quarteto de cordas ou um duo de violino e piano.
Tanto Ida Presti quanto Alexandre Lagoya já tinham suas
carreiras encaminhadas como solistas, mas seu encontro
e suas três paixões - pela música, pelo violão e um
pelo outro - foram uma combinação explosiva, capaz de
criar reverberações incalculáveis.
Alexandre Lagoya nasceu no Egito, de pai grego e mãe
italiana, e já adolescente iniciou sua carreira de
concertista em seu país e, mais tarde, mudou-se para a
França para completar seus estudos. Ida Presti era
filha de um professor de piano francês e de mãe
italiana, foi praticamente autodidata no violão e deu
seu primeiro recital solo em 1934, aos 10 anos de
idade. Aos 14 fez suas primeiras gravações e aos 17 já
era uma veterana dos palcos. A ocupação de Paris na 2a
guerra e um primeiro casamento infeliz prejudicaram sua
carreira, mas as gravações que realizou aos 14 anos de
idade atestam a presença de um talento singular, um dos
maiores prodígios da história do violão. Já vi muitas
crianças tocando repertório bastante avançado, com
técnica polida e ocasionalmente uma musicalidade inata
evidente, mas nada que remotamente se comparasse a esta
estupenda interpretação do 1o. mov. da Sonatina de
Torroba.
Ida Presti & Luise Walker,
faixa 7
Torroba - allegretto da sonatina em la maior 3.05
É uma interpretação de notável controle rítmico, verve e elegância. Ida e Alexandre se encontraram pela primeira vez 1950 na casa de um aficionado em Paris. A identificação foi total e, em 1952, já estavam casados e já estava decidido que se dedicariam exclusivamente à carreira de duo. A recepção da crítica francesa foi extremamente positiva e abriu espaço para uma carreira internacional ascendente, até a abrupta interrupção com a morte prematura de Ida Presti em 1967. Em 15 anos de atividade, deram mais de 2 mil recitais e gravaram vários LPs, a maioria pela Phillips. De todos os Programas até agora este é o que mais apresentou dificuldades na seleção, pois todas as gravações são de qualidade extraordinária. Uma marca inconfundível já se escuta no seu cartão de visitas, a Chaconne de Haendel.
Ida Presti & Alexandre
Lagoya, disco 2, faixa 13
Haendel - Chaconne em sol maior 13.12
Ao contrário de Segovia, que fazia com que todos os
elementos expressivos gravitassem em torno de si e de
suas melhores qualidades, aqui já percebemos uma
abordagem que tenta importar para o violão a linguagem
de outros instrumentos, no caso o cravo. A
expressividade é obtida com um comando absoluto das
cores primárias do violão, na intransigência com que
mantém o colorido em seções completas para sugerir as
mudanças de registro do cravo, no rigor rítmico, mas ao
mesmo tempo na sonoridade redonda e na alta temperatura
emocional. A ornamentação traz algumas novidades.
Apesar de demasiado intensos para os padrões atuais, os
ornamentos são historicamente corretos e exploram as
duas maneiras distintas de executar os trinados com
igual desenvoltura e precisão (exemplificar).
No que se refere à precisão de conjunto, o patamar
alcançado por eles é sem precedentes. O violão tem em
comum com o piano o fato de todas as notas terem um
ataque extremamente definido e uma rápida queda de
volume. Se o ouvinte tentar, junto com um amigo, tocar
duas notas ao mesmo tempo, num piano ou num violão,
pode apostar que na maioria dos casos estas notas não
soarão juntas. Um duo de violões tem de estudar e
ensaiar praticamente cada nota e cada acorde, na busca
da unificação da intenção musical. Muitas vezes esta
tentativa de sincronia faz com que a execução fique
rígida como um bate-estacas. Não o duo Presti-Lagoya.
Escutem a admirável maleabilidade com que tocam a suíte
de Marella
Disco 1, faixas 5 e 8
Marella - Suíte em lá - Andante e giga 3.18
1.41
[comentar sobre o estilo Empfinsamkeit] A
imprevisibilidade do fraseado é atordoante: nunca se
sabe se a próxima frase será tocada estritamente no
tempo, se haverá uma hesitação antes da última nota, se
haverá uma leve brisa de aceleração, se a nota superior
será alcançada a seco ou com um gentil debruçar-se -
mas cada mínima inflexão é executada com total
sincronia. Até as mínimas ondulações da dinâmica
(exemplificar) são tocadas com total unidade de
propósito.
A sonoridade do duo é bastante particular. Ida Presti
adotou, bem cedo em sua carreira, uma angulação para a
mão direita que fere a corda com o lado direito do
dedo, que produz uma sonoridade redonda e penetrante,
que eu costumo chamar de "bolsinhas de couro"; esta
sonoridade é naturalmente aveludada, mas de alta
definição timbrística: as notas agudas têm uma
sonoridade brilhante e os metálicos têm uma qualidade
de sino bastante peculiar, que eles usam com grande
efeito dramático nas obras pré-românticas italianas
como esta serenata de Carulli.
Disco 3, faixa 14
Carulli - Serenata em sol, op.96 no.3 - Finale:presto
4.33
[comentar abordagem estilística] Esta sonoridade arrebatadora fez deles o veículo ideal para a música espanhola; suas interpretações de Albeniz, Granados e Falla são soberbas, e uma das melhores obras de Joaquin Rodrigo foi escrita para eles.
Disco 1, faixa 19
Rodrigo - Tonadilla 1o. mov. allegro ma non troppo
2.43
Rodrigo também escreveu um excelente concerto para 2 violões e orquestra. O violão costuma refletir nitidamente a personalidade de quem o toca. Não só o tipo de técnica e postura, a velocidade com que os dedos deixam as cordas escapar, mas também o formato e textura dos dedos e unhas faz com que cada violonista tenha uma sonoridade característica e difícil de reproduzir. Duos formados por irmãos, especialmente irmãos gêmeos, têm mais facilidade em obter homogeneidade sonora, devido à semelhança física. Mas o duo de marido e mulher Presti-Lagoya consegue o milagre de uma sonoridade absolutamente uniforme pela afinidade musical e espiritual. Já ouvimos várias obras de Castelnuovo-Tedesco nos Programas sobre Segovia; ele compôs 24 prelúdios e fugas para dois violões, As Guitarras Bem Temperadas, e dedicou-os ao duo. O P & F em mi maior nos deixa o gostinho do que teria sido uma integral, que não chegou a ser feita pelo duo, e nos dá um exemplo comovente da atmosfera de ternura que eles eram capazes de criar.
Disco 3 - faixa 9
Castelnuovo-Tedesco - P & F em mi maior 4.15
[relato de Duarte] Como todos os grandes artistas, é difícil categorizar o duo Presti-Lagoya. Aos mesmo tempo em que eram capazes de tocar com tal doçura, eles também se excediam em obras ágeis ou galhofeiras do repertório francês. Um exemplo é a Toccata de Pierre Petit, também composta para eles, onde o grau de eletricidade é elevado e uma citação de Gershwin perto do final é tocada quase que em meio a gargalhadas.
Disco 3 - faixa 6
Petit - Toccata 5.20
Ou esta pequena transcrição de Poulenc, que traz à mente imagens de acordeonistas de boina, à beira do Sena.
Disco 3 - faixa 7
Poulenc - Improvisation no.12 2.04
Ou a atmosfera misteriosa, opressiva e obcecada da violência mal contida da Dança de Manuel de Falla.
Disco 3 - faixa 8
Falla - Danza Ritual do Fogo do ballet El Amor Brujo
3.51
Em abril de 1967, durante uma turnê dos EUA, Ida
Presti sentiu-se mal durante um vôo e foi levada ao
médico. Um erro provocou uma hemorragia durante uma
bronquioscopia, e ela faleceu com apenas 43 anos.
Alexandre Lagoya entrou em profunda depressão e só
conseguiu retomar uma carreira solo, sem brilhantismo,
5 anos depois dessa verdadeira tragédia. Numerosos
projetos de gravação, de obras importantes como os
concertos de Rodrigo e Castelnuovo compostos
especialmente para eles, não se concretizaram. Mas
ainda assim estes desbravadores criaram o precedente de
uma carreira possível para um duo de violões. Nunca
tocaram no Brasil, e a distribuição de seus discos aqui
era precária, mas ainda assim, por vias independentes,
dois duos brasileiros, os irmãos Abreu e os Assad,
vieram progressivamente a preencher o vácuo deixado por
estes artistas estupendos, Ida Presti e Lagoya.
No próximo Programa, a arte de Julian Bream.

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