Programa VI - Os Contemporâneos de Segovia
Andrés Segovia está num carro, a caminho de um concerto, e por todo o percurso vai criticando duramente seus colegas, reclamando o quanto suas técnicas deficientes mancham a reputação do violão. "Quanto aos amadores", diz, "deveriam desaparecer da face da terra, pois são uma desgraça para a arte do violão". Um amigo, com ele no carro, replica: "mas Maestro, o mundo do violão é uma pirâmide. Nós precisamos de uma ampla base de amadores, pois estes é que compram ingressos e discos, e assim sustentam o topo da pirâmide, que é o senhor!". Depois de uma pausa, Segovia responde: "Você tem razão. São necessários muitos pecadores para se fazer um Papa".
BG
Mas seriam todos eles pecadores? Ou bispos e
cardeais, talvez até injustamente preteridos para o
posto de Pontífice?
Coloquemos os pingos nos ii. Claro que Segovia foi a
pessoa certa na hora certa, mas, no que se refere à
técnica, "pontaria" musical e abrangência de
repertório, nenhum outro violonista poderia lhe fazer
frente; alguns deles poderiam ser superiores em alguns
elementos específicos, mas Segovia atingiu uma síntese
que só pôde ser emulada na próxima geração, a partir
dos anos 50. [Só podemos imaginar o número de horas que
ele deve ter passado debruçado sobre o violão,
construindo um conceito sonoro a partir do nada,
livrando-se de preconceitos musicais, experimentando o
acabamento ideal para suas unhas, a angulação que
produzisse o som mais vívido, as inúmeras maneiras de
se harpejar um acorde, as infinitas maneiras de se
acentuar uma nota ou realçar uma frase, tocando,
ouvindo, sentindo, comparando e corrigindo.] A arte de
se fazer violões melhorou para servi-lo; as cordas de
nylon, inventadas por Albert Augustine durante a 2a
Guerra, para substituir as de tripa, indisponíveis por
serem de fabricação alemã, foram inventadas porque
Segovia assim o quis.
Entretanto alguns de seus contemporâneos,
extraordinariamente talentosos, complementaram seu
trabalho, cada um com uma ênfase pessoal. Se suas
carreiras foram mais modestas, foram também essenciais
como um contraponto para o êxito singular de Segovia e
para a formação de um público para o violão fora dos
grandes centros em que ele estava habituado a se
apresentar.
Na Espanha, o mais respeitado deles foi Regino Sainz de
la Maza (Burgos, 1896-1981).
[BG?]
Regino estudou com Fortea, que havia sido aluno de
Tarrega. Sua carreira internacional foi modesta, mas na
Espanha ele era considerado o violonista dos
"iniciados", e tido como um músico de maior cultura
musical que Segovia. Ele e seu irmão Eduardo foram
compositores de relevo; Regino foi o criador da
primeira cátedra de violão do mundo, no Conservatório
de Madri em 1935; a presença dos irmãos La Maza foi
fundamental como uma resistência no duro período da
ditadura franquista. Inúmeros compositores, inclusive
os vanguardistas da geração de 1927, escreveram para
ele. E seu nome foi inscrito na história quando estreou
uma obra que Joaquin Rodrigo lhe dedicou: o concerto
mais popular do século, o Concierto de Aranjuez.
Concierto de Aranjuez, FAIXA
2
2º mov, Adagio 8.08
[Desanúncio] Rodrigo se auto-denominava um
compositor "neo-castiço", e o Concierto de Aranjuez
ilustra sua preferência por formas inspiradas no
passado musical espanhol, temperada por uma elegante
ironia, que é sublinhada por esta vigorosa
interpretação. Hoje estamos acostumados a
interpretações melosas deste movimento, mas Regino o
toca com uma expressão franca, sem arrastar o andamento
e com especial cuidado pela sincronia com a orquestra,
nesta que foi a primeira gravação, em 1948, da obra que
tornou Rodrigo mundialmente famoso.
O primeiro intérprete sul-americano a ter uma carreira
de relevo no exterior foi o uruguaio Júlio Martinez
Oyanguren. Nascido em 1905, ainda bastante jovem fixou
residência nos EUA, onde foi extremamente popular,
chegando até a solar com a Filarmônica de N York e a
tocar para o presidente Roosevelt. Em 1960 ele retornou
ao Uruguai, onde faleceu em 1973. Muito do repertório
de Oyanguren era dedicado a arranjos de música
folclórica e clássicos de salão. Ouviremos a fantasia
Alhambra de Juan Parga, um notável compositor andaluz
da 2a metade do séc XIX, que em suas obras procurou
aliar as formas de dança flamenca a uma moldura
clássica. Nesta gravação ouvimos a habilidade de
Oyanguren em despachar com verve uma batelada de
efeitos; ele consegue amarrar a estrutura desta obra
rapsódica com um timing perfeito, caracterizando cada
ambiente com clareza de articulação e uma ampla gama de
dinâmica que sugere vários planos de atividade
musical.
Disco Oyanguren, faixa 23
Juan Parga: Alhambra 4.25
Introducción, Zambra, Moruna, Parranda, Granadina e
Final
[Desanúncio] Numa gravação em 78 rotações sem
data. Nela ouvimos as melhores qualidades de Oyanguren,
mas também algumas de suas limitações, como uma
sonoridade de arame nos baixos; em muitas de suas
gravações, os defeitos são mais aparentes que as
qualidades. É importante dizer, entretanto, que, nas
gravações anteriores à 2a guerra, Llobet, Segovia e dos
artistas deste Programa tocam com cordas de tripa.
Essas cordas têm um timbre mais áspero que o nylon e
são notoriamente temperamentais, desfiando e perdendo a
sonoridade com o uso e as condições climáticas.
Artistas como Oyanguren, de uma certa forma, ajudaram a
engrossar um público de pouca cultura musical que, no
entanto, viria se "graduar" para a arte mais severa de
Segovia.
Estes senhores eram sem dúvida extremamente capazes,
mas um talento verdadeiramente fora da norma pertencia
a uma dama: a argentina Maria Luísa Anido. [BG?] Ela
nasceu 1907 e estudou com Domingo Prat e com Miguel
Llobet. Ainda menina já fazia turnês em duo com Llobet.
Ela ensinou no Conservatório Nacional em Buenos Aires
por mais de 50 anos, e aos 81 anos de idade, foi
convidada pelo governo de Cuba a residir em Havana,
onde continuou a ensinar até pouco antes de falecer em
1996. Eu tive o privilégio de conhecê-la pessoalmente
na Espanha em 1992; ela não devia passar de 1.50 de
altura, estava impecavelmente trajada e maquiada e
portava-se com a suavidade e autoridade de uma lady.
Talvez ela só tenha dado vazão ao lado delirante de sua
personalidade no violão, como ouvimos nesta
interpretação arrebatada, grandiosa, de Albéniz:
Maria Luisa Anido vol 1 - FAIXA
8
Albeniz: Cadiz 4.19
[Desanúncio] nesta gravação ouvimos a prática, também adotada por Segovia, de se harpejar os acordes como uma norma [exemplificar], sendo que acordes perfeitamente simultâneos são exceção [exemplificar]. A intenção desta prática é otimizar os recursos sonoros do violão, já que os acordes harpejados tendem a criar um espectro harmônico mais complexo e uma sonoridade mais cheia, além de permitir o realce de vozes internas. Anido parecia não ter limites. Ela toca esta pequena dança de sua autoria de forma eletrizante, e com uma combinação de pizzicato com sons naturais e um movimentado contraponto consegue dar a ilusão de um grupo folclórico a todo vapor.
Maria Luisa anido vol 1 - FAIXA
11
Anido: Aire Norteño 1.09
[Desanúncio] Anido tinha o dom de re-compor
uma obra com sua interpretação. Neste tremolo de
Tarrega, ela maneja o andamento com uma liberdade sem
fronteiras, acelerando e acalmando de maneira
totalmente espontânea. Seu tremolo é perfeito, mas na
introdução ouvimos a sua especialidade, que é conjurar
uma atmosfera de calma em que o tempo quase
pára.
Anido - Recital de Guitarra -
FAIXA 7
Tarrega: Sueño 4.40
[Desanúncio] O pianista Daniel Baremboim já disse que os músicos desse período tinham uma sensibilidade exacerbada para a harmonia, e que o peso e tensão relativos de cada acorde guiavam seu conceito de interpretação. Anido é uma demonstração deste conceito, nesta interpretação de Albeniz. Aqui, sua sonoridade não está particularmente bonita, mas a melodia inicial parece flutuar, as notas longas ficam suspensas no espaço e cada mínimo movimento harmônico é sublinhado com uma nuance de dinâmica e colorido.
Anido - Recital de Guitarra -
FAIXA 6
Albeniz Granada 5.22
[Desanúncio] Um defeito desta gravação, aliás
uma constante na época, é que o violão está
terrivelmente desafinado, provavelmente um descuido ou
uma corda com defeito, algo que Segovia jamais deixaria
passar; ele trocaria as cordas quantas vezes fossem
necessárias para perfeição.
Uma artista muito diferente, mas igualmente uma grande
dama do violão, foi a austríaca Luise Walker [BG?]. Ela
nasceu em 1910 Viena, onde residiu por toda sua vida e
faleceu em 1998. Estudou com os maiores nomes do violão
em Viena na época, mas também teve aulas com Miguel
Llobet, e tornou-se por muitos anos a catedrática de
violão na Academia de Música de Viena. Luise Walker
herdou um interesse pela tradição vienense, que
remontava ao início do séc XIX, e iluminava o violão
como instrumento de salão da alta sociedade e um ativo
participante na música de câmara. Sem ter uma técnica
particularmente brilhante, Walker tocava com um
lirismo, feminilidade e doçura incomparáveis. Nesta
gravação de Schumann, nós temos um exemplo extremo da
abordagem vienense na época: praticamente todos os
acordes são harpejados; os baixos, sem exceção, são
antecipados em relação à melodia; muitas vezes ela toca
4, 5 ou 6 notas consecutivas com glissando, um leve
deslizar entre elas, um procedimento usado no violino,
como ouvimos nas gravações de Fritz Kreisler ou do
quarteto Busch. Esta prática, que produz uma textura
diáfana e uma projeção quase vocal da melodia está,
infelizmente, praticamente abolida das interpretações
modernas, e esta gravação é um documento de uma época
que não existe mais.
Ida Presti & Luise Walker -
FAIXA 10
Schumann: Träumerei 2.44
[Desanúncio] Enquanto Luise Walker se desvelava pelo violão como um instrumento quase que doméstico e Segovia prosseguia em sua conquista dos grandes teatros, o espanhol Ángel Iglesias rodava o mundo com o seu espetáculo cross-over. [BG?] Nascido em Badajoz em 1917, ele, como todos de sua geração, foi aluno de um aluno de Tarrega. Desde suas primeiras apresentações, ele oscilou entre o repertório clássico e o flamenco, dominando os dois com igual excelência. Mais tarde casou-se com a dançarina Nati Morales, com quem faria intermináveis turnês, fascinando o público dos teatros de revista e dos night-clubs com sua beleza misteriosa e com a eletricidade de suas apresentações. Claro que as considerações econômicas também tiveram sua parte: nos anos 40 e 50, artistas do show business já ganhavam muito mais que obscuros concertistas de violão clássico. Ao chegar à Dinamarca, onde Iglesias residiu, os repórteres ficaram estarrecidos com a quantidade de malas em sua bagagem. A explicação era simples: eles vinham de uma turnê ininterrupta de 8 anos! Pouca gente acredita que um sujeito bonito e bem sucedido possa também ser bom músico, e Iglesias ficou com a pecha de ser um músico de boate; mas a evidência de suas gravações é a de que ele era uma capacidade extraordinária e, no que se refere a metralhar uma grande quantidade de notas por segundo, o seu arrojo não tinha paralelo. Nesta obra de Tarrega, um dos grandes "hits" do repertório do violão deste período, ele deixa seus colegas comendo poeira.
Arabesca, FAIXA 1
Tarrega: Gran Jota 3.21
[Desanúncio] Uma contraparte a esta fúria violonística de gosto algo duvidoso é o refinado cubano Rey de la Torre, também nascido em 1917. A exemplo de Anido e Walker, ele estudou com professores locais e mais tarde aperfeiçoou-se com Llobet. Sua estréia em Nova Iorque em 1941 fez tal sucesso que ele viveu pelo resto de sua vida nos EUA, gozando de uma sólida reputação. Em meados dos anos 60 ele foi acometido de uma artrite degenerativa e teve de abandonar os palcos, mas continuou ensinando violão por mais 30 anos e faleceu, amargurado, na Califórnia, em 1994. A extensa discografia de Rey de la Torre demonstra um gosto impecável na escolha de repertório. Suas interpretações da obra de Fernando Sor são de especial interesse, pois demonstram uma abordagem mais moderna e disciplinada que a de seus contemporâneos. Dispensando arroubos delirantes, seu fraseado respeita a simetria clássica com uma sutil flutuação de andamento, evitando acentos impróprios e atingindo os pontos culminantes com um cuidadoso controle dinâmico, como nesta resplandecente interpretação do estudo op.29 no.1:
Fernando Sor Grand Sonata, FAIXA
7, começando 1´58´´ e terminando aos 4´08´´
Sor: Estudo em si b maior op.29 no.1 2.10
[Desanúncio] Sem contar com a imensa gama expressiva de Segovia ou Anido, Rey de la Torre, com seu fraseado aristocrático e minucioso, ajudou a "desanuviar" a atmosfera carregada dos clichês interpretativos de sua época. Ele já aponta para a tendência contemporânea de se "esconder" as idiossincrasias técnicas do violão em favor de uma realização musical mais neutra. Sua arte inspirou vários compositores latino-americanos a escreverem obras-primas para o violão como este bartokiano Prelúdio y Danza de Orbón:
Rey de la Torre vol 1, FAIXA
12
Orbón: Prelúdio y Danza 3.33
[Desanúncio] Não é exagero dizer que Segovia
é, no violão, a contraparte dos regimes totalitários
que marcaram o século XX. Sua figura dominante relegou
estes grandes artistas a um papel coadjuvante. Se ele
não houvesse existido, seus nomes seriam escritos no
cartaz da história do violão com letras maiúsculas.
Mas, sem ele, esse cartaz teria sido bem menor.
[Agradecimentos e anúncio.]

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