A Arte do Violão

Programas idealizados e apresentados por Fábio Zanon

Programa V - Andrés Segovia: Gravações 1957-1977

"Acompanhá-lo no processo de gravação foi uma das minhas maiores experiências. Seu som era parte integral do conceito musical como um todo; eu não conheço ninguém que toque desse jeito em nenhum outro instrumento. Não importa o quê ele fizesse, de qualquer jeito que fizesse, funcionava - e de uma maneira única". Esta é a recordação do produtor Israel Horowitz depois de décadas de colaboração no estúdio de gravação. Ao lhe perguntar: "Maestro, com que idade começou a tocar o violão?", a resposta foi: "desde muito antes de nascer".
Andrés Segovia, gravações 1957-77

The Segovia Collection - disco 3, faixa 35
Granados - La Maja de Goya - 1958 4.47

O intérprete freqüentemente enfrenta o dilema da escolha entre a manutenção da unidade musical, o que se faz essencialmente pela constância do pulso, e o desejo de sublinhar pequenas belezas localizadas, o que se faz essencialmente com a qualidade do som - que pode ser mais penetrante, mais vibrante, mais velado, mais pontiagudo de acordo com o caráter que se quer imprimir. O problema é que um tipo de som tão particular toma tempo para desabrochar - o que afeta a continuidade do pulso musical. Nesta gravação da Tonadilla de Granados Segovia demonstra de maneira magistral como é possível obter o equilíbrio. Ele não só valoriza uma infinidade de detalhes que numa execução literal passariam desapercebidos, mas o faz sempre evitando posicionar o vibrato, o glissando e as sonoridades metálicas (exemplificar com violão) nos lugares mais óbvios; assim ele se exime da obrigação de repeti-los e cair em redundância, ganhando liberdade para retornar rapidamente ao andamento correto depois de roubar uma fração do tempo em favor da sonoridade. Apesar da minúcia e nitidez, o forte perfume erótico que sua interpretação exala chega às bordas do impossível ao fazer uma obra puramente instrumental soar quase obscena - tão obscena quanto o olhar descarado da cortesã do quadro de Goya.
1959 foi o ano do Jubileu de Segovia, quando ele celebrou 50 anos de carreira lançando uma caixa de 3 LPs que são um verdadeiro marco. O sexagenário violonista parece superar até mesmo sua habitual excelência. O primeiro desses LPs traz dois concertos para violão e orquestra escritos para ele. Neste fragmento gostaria de chamar a atenção para a sonoridade de bronze dos baixos do violão e para a sutileza com que ele timbra suas entradas de acordo com os instrumentos de sopro - clarineta, oboé e flauta - que o acompanham na seção central.

The Segovia Collection - disco 1, faixa 6
Ponce - Concierto del Sur - 2º mov.andante - 1958 6.27

[Desanunciar] É impressionante como ele consegue ao mesmo tempo fazer com que suas entradas não soem casuais, tocando com uma sonoridade mais estridente, ao mesmo tempo em que reserva sua sonoridade mais robusta, valorizada por um leve espalhar das notas dos acordes, nos momentos de maior tensão dramática.
A partir gravações do Jubileu, Segovia teve espaço para registrar no LP as maiores obras que marcaram sua carreira. Uma crítica freqüente a Segovia era a de que ele tocava obras curtas com grande charme, mas que não era capaz de cumprir os requerimentos formais das obras de maior envergadura com o mesmo sucesso. No entanto suas gravações mostram que ele tinha uma capacidade ímpar de caracterizar os vários movimentos de uma sonata e de desenhar um grande arco formal através de um processo cumulativo. Um dos melhores exemplos é o da Sonata de Castelnuovo-Tedesco.

Castelnuovo-Tedesco - Sonata 16.05

Entre 1949 e 1977, ano de sua última gravação, Segovia lançou cerca de 40 LPs, e as várias re-edições e compilações fazem de sua discografia um verdadeiro labirinto. Precisaríamos de uma série de Programas só para Segovia para fazer justiça ao seu legado. Em mais de 50 anos de carreira ele não se havia permitido um único período de férias, fazendo anualmente temporadas de mais de 100 concertos, ainda aprendendo novo repertório, enfrentando a bajulação dos admiradores e dos alunos, que ensinava nos festivais de Santiago de Compostela e de Siena, gravando discos e Programas de TV, e sem jamais fazer concessões em seus extensos Programas, que infalivelmente incluíam obras de seus amigos mais chegados. De Torroba gravou 3 obras extensas, os Castillos de España, a Sonatina e as Piezas Características, da qual ouvimos o 5 movimento, Albada. Aqui ele obtém um efeito formidável no uso do glissando, o ligeiro deslizar entre as notas, ora criando o um efeito tátil e sensual, ora dando ao fraseado um caráter risonho e brincalhão.

The Segovia Collection - disco 2 faixa 13
Torroba - Albada 1958 1.33

De seu favorito Manuel Ponce, Segovia gravou algumas das maiores obras, incluindo 4 sonatas, uma sonatina, dois temas com variações e vários prelúdios e peças curtas, aliando um certo rigor formal acadêmico à extraordinária fantasia e vigor. Um pequeno exemplo de sua afinidade com este compositor pode ser ouvido no movimento final, allegro, da Sonata no.1 "Mexicana". Reparem no cuidado com que ele gradua sua dinâmica e constrói uma sucessão de clímaxes cada vez mais intensos, que só se desencadeiam totalmente no final.

The Segovia Collection - disco 2 faixa 25
Ponce - Allegro, da Sonata mexicana - 1958 3.37

Outro compositor de presença marcante em seu repertório foi Tansman, o maior compositor polonês do período, de quem gravou a Cavatina e a Suíte em Modo Polônico, entre outras obras menores. Tansman foi um grande admirador Stravinsky, um compositor de um neo-barroquismo enriquecido pelo cromatismo harmônico rica e informado pelo aristocrático uso do folclore nacional. Nele ouvimos Segovia num estilo mais comedido, de serena intensidade e sem sombra de espanholismo, onde as tramas da textura musical são desfiadas com habilidade de ourives.

Segovia - Suite in Modo Polonico - faixa 5
Tansman - Reverie e Alla Pollaca - 1964 4.26

No mesmo disco, Segovia gravou a estupenda Suite Compostelana de Mompou, uma obra íntima e de um caráter místico. Aqui ouvimos o sofisticado comando da atmosfera através de um fraseado aristocrático e de uma intensa projeção da linha melódica.

The Segovia Collection - disco 2, faixa 19
Mompou - 5o mov. Canción - 1964 2.58

Formidáveis como são suas gravações de obras de maior envergadura, nas obras curtas de caráter íntimo é onde a luz de Segovia brilha mais intensa. Numa obra despretensiosa de uma autora obscura, Nana de Maria Esteban de Valera, ele extrai todo o mel do violão e toca com a doçura de um avô afagando a cabeça de um netinho. Se o consolo pudesse ser traduzido em música, este é o som que ele teria:

Escenas Españolas - disco 2 faixa 25
Valera - Nana - 1964 2.27

Segovia usou por 25 anos seu violão Manuel Ramírez/Santos Hernandez e, em 1937, adotou o instrumento feito pelo luthier alemão Hermann Hauser, que de fato era o maior instrumento de sua época. Depois de 25 anos de viagens, resolveu aposentá-lo e experimentar os violões de José Ramírez III, que estava fazendo uma interessante pesquisa com um novo tipo de madeira para o tampo. Até então o tampo do violão, que é o que efetivamente caracteriza seu timbre e equilíbrio, era feito exclusivamente de abeto alemão, uma árvore da família dos Pinus. Ramirez III, na tentativa de fazer instrumentos em série de melhor qualidade, com uma madeira menos temperamental, fez experiências com o cedro do Oregon e obteve resultados excepcionais. Segovia usou vários desses instrumentos até o final de sua carreira, e depois de desentendimentos com Ramirez, adotou também os violões de Ignácio Fleta, de Barcelona. Não é necessário dizer que esses instrumentos valorizaram-se enormemente e, em pouco tempo, todos os jovens violonistas do mundo queriam também tocar em Ramirez e Fleta. A diferença fundamental é de timbre e projeção. Os violões de abeto costumam ter uma sonoridade extremamente focada e definida, onde todas as notas de um acorde soam individualmente. Os violões de cedro normalmente têm uma projeção mais difusa e menos direcionada, uma textura mais pastosa e, não importa quem os esteja tocando, tendem a soar com uma cor própria. É um instrumento mais potente e grato de tocar, e que ajudou Segovia a disfarçar o inevitável declínio de sua facilidade técnica, mas que aumentou ainda mais o apelo de sua magnífica sonoridade, que reveste uma obra modesta como a Suíte Inglesa op.31 de John Duarte com um verniz mágico.

Segovia on Stage - Faixa 12
John Duarte - Folk Song - 1967 2.42

[Desanunciar e comentar] Esta obra foi dedicada como presente de casamento, o terceiro de Segovia, com uma aluna quase 50 anos mais jovem, com quem ele ainda teria mais um filho, de uma certa forma um final tranqüilo para uma vida pessoal atribulada e repleta de eventos que não fazem nenhum favor à sua reputação. A partir dos anos 60, o artista septuagenário foi coberto de honrarias, entre elas o título de Marquês e o prêmio da Royal Philharmonic Society de Londres, além de ter tocado para vários monarcas, para o Papa e para o presidente Jimmy Carter na Casa Branca num concerto televisionado. Em certos momentos, sua memória, já não tão confiável, podia trazer problemas. Neste concerto da Casa Branca, por exemplo, ao esquecer um trecho de uma das peças, ele teve a presença de espírito do consumado profissional e, improvisando uma transição, terminou em outra obra. Para quem não conhecia as músicas, o sufoco foi imperceptível. Como muitos dos ouvintes nunca tiveram a chance de ouvir uma gravação de Segovia ao vivo, um exemplo da enorme concentração e atmosfera que ele era capaz de comandar.

Aura, faixa 23
Torroba - Romance de los Pinos - gravado ao vivo em Lugano em 3-Out-1968 1.52

Nos últimos 20 anos de sua vida, Segovia regularmente tocava em teatros de mais de 2 mil lugares, e dizia que, enquanto as pessoas ainda o quisessem escutar, ele continuaria tocando. Como cada recital de um senhor de mais de 80 anos pode ser o último, ele sempre tinha casa cheia pois o público não queria perder a chance de ver a lenda ao vivo, mesmo com o evidente declínio que levou as gerações mais jovens a, injustamente, desprezar sua importância. O violão e seu repertório já estavam caminhando em outra direção e Segovia representava uma tradição já passada, mas hoje, através de suas gravações, podemos avaliar em perspectiva o papel fundamental que ele exerceu na história do violão. Seu último concerto foi aos 94 anos em Miami, em abril de 1987, e ele faleceu em junho do mesmo ano na sua casa em Madri, assistindo televisão. Seu último disco, gravado dez anos antes, já mostra um artista quase incorpóreo, com interpretações estáticas, onde o tempo parece passar mais devagar.

Reveries, faixa 14
Asencio - Pentecostes, da Suíte Mística

No próximo Programa, os contemporâneos de Segovia.