A Arte do Violão

Programas idealizados e apresentados por Fábio Zanon

Programa IV - Andrés Segovia: Gravações 1947-1955

Como som de violão, é absolutamente ideal e o melhor som possível em toda a era do violão clássico no século XX. Aquele tipo de som, aquele vibrato, aquele debruçar-se sobre as notas, é tudo parte do mesmo sentimento pelo som do violão. É o som e o estilo que inspiraram todo o mais.
John Williams


Hauser 1937

A vida musical do planeta passou por mudanças drásticas após o final da 2a Guerra mundial. Do ponto de vista sociológico, as décadas seguintes marcam a ascensão absoluta e imprevisível da cultura de massa, beneficiada pela ampliação e alcance dos meios de comunicação como o rádio, tv e gravação. A música popular, antes um aspecto, se não secundário, certamente de pouca atração para o establishment cultural, passou progressivamente a dominar o imaginário popular e, como demonstra a vertiginosa ascensão do rock, a movimentar massas humanas antes somente encontradas em manifestações de caráter político. A música clássica entrou nas universidades e pouco a pouco tornou-se domínio de uma nova elite, não econômica, mas acadêmica. Nessa esfera, triturados pela guerra, compositores e intérpretes diminuíram suas atividades, exilaram-se ou pereceram. A música composta na década de 50 é de um caráter rigoroso, ascético e se reveste de um apego ao cientificamente demonstrável sem precedentes na história da música. Como conseqüência, uma nova abordagem de interpretação do repertório tradicional se fez necessária e passou, pouco a pouco, a dominar a cena musical: o intérprete não mais é um demiurgo que revive o espírito de um compositor, mas um pesquisador que, servindo-se das ferramentas da hermenêutica, encontra o significado da música em sua estrutura, e no significado exclusivo do que se vê na única fonte confiável de acesso à idéia do compositor: a partitura. Um estilo severo e rigoroso de interpretação passou a dominar a cena musical, mas Segovia manteve-se, impávido, fiel aos princípios românticos da interpretação como um espelho da vida emocional, por vezes íntima mas freqüentemente arrebatadora. Muito de seu fascínio neste período residiu exatamente na lealdade a uma abordagem interpretativa que apelava aos sentidos do ouvinte antes de mais nada.

BG
[Falar sobre concertos para violão e orquestra, estréia em Montevidéu. Primeira gravação de concertos.]

Recordings - faixa 17
Castelnuovo-Tedesco: Concerto op.99 2o mov. 6.29

[Relação de Segovia com Villa-Lobos]

1949 London Recordings - faixa 8
Villa-Lobos: Estudo no.1 1.56

[Conceitos de sonoridade e interpretação. Qualidade de som. As necessidades primárias do ouvido humano. Necessidade de se completar uma ampla gama de freqüências. Fascínio pela variedade de timbres. As mãos de Segovia e descrição das características fundamentais de seu timbre.]

"O maior problema para o músico que se encontra à frente de duas mil pessoas é precisamente este: ter uma grande variedade de cores à disposição, ser um pintor de afrescos. A técnica de Segovia não era particularmente brilhante no que se refere, por exemplo, a velocidade, mas era superlativa no que se referia a variedade de cor."
Piero Rattalino

The Art of Segovia - disco 1 faixa 2
Tarrega: Capricho Árabe - 1955 5.27

[Conceitos de fraseado. Emulação da voz. Canto salmódico/ canto falado]

"Quando entra a melodia, não ouvimos apenas um som agradável. O som do cantabile, diferente do som do acompanhamento, desenvolve-se, abarcando uma doçura langorosa a um ataque afiado com a unha ao invés da polpa do dedo. Segovia não está interessado em cantar somente com um único tipo de som bonito, porque o canto seria salmódico. Ele usa variedade timbrística para re-conquistar a variedade oferecida por vogais e consoantes. Seu cantabile torna-se absolutamente "falado"". Piero Rattalino

Segovia Music of Albeniz and Granados - faixa 5
Albéniz: Torre Bermeja - 1950 3.40?

[Imprevisibilidade e fantasia. Necessidade de aspectos unificadores e elementos de variedade.]

"Ele afina inaudivelmente e praticamente sem ser visto. Quando ele ainda parece estar afinando, a obra já começou de fato, e é função do público se ajustar ao pequeno volume. Apesar disso, ninguém preferiria estar numa sala menor, tal é a sedução de seu conceito ame-ou-deixe de interpretação.
Suas interpretações são feitas de uma infinita variedade de toque e nuance, aplicadas com atordoante imprevisibilidade. Não há como dizer se a próxima nota será atacada frontalmente ou se será alcançada através de um deslizamento, se a próxima frase trará um vibrato e onde ele será aplicado, se uma passagem rápida soará polida e nítida ou com uma sonoridade oca.
Quase invariavelmente, é depois do evento, nunca antes de um episódio se concluir, que se compreende qual era a sua meta. Assim, ao contrário do tipo mais extrovertido de virtuose, este nobre artista nos deixa exaustos, não emocionalmente, mas, mesmo que não se perceba, intelectualmente."
Peter Stadlen, Daily Telegraph

The Art of Segovia - disco 2 faixa 3
Haendel - Sarabande 1952 3.59

[A arte do rubato. Liszt descreve o rubato de Chopin. Manutenção da forma através do rubato.]

"Em geral, o estilo de Segovia é caracterizado por um sistemático uso do staccato. Podemos ouvi-lo no seu manuseio de notas individuais ou em fragmentos motívicos compostos de notas curtas. Esteticamente, o efeito geral é de uma pronúncia musical extremamente distinta. A execução de Segovia também se caracteriza por um conceito bastante flexível de pulso, o qual, mais que qualquer outro fator individual, contribui para a completa vitalidade de seu som."
Charles Duncan, Guitar Review

The Art of Segovia - disco 1 faixa 13
Castelnuovo-Tedesco: Capriccio Diabólico - 1954 9.15

[relaxamento e seu efeito na interpretação (Busoni). Impassibilidade de Segovia e consistência técnica.]

The Art of Segovia - disco 1 faixa 17
Carlos Pedrell: Guitarreo - 1954 1.28

Aspecto demiúrgico. Convicção. Genuíno delírio artístico compensando desvios estilísticos. 10 anos estudando a Chaconne.]

Segovia Box - disco 4 faixa 15
Bach: Chaconne - 1954 13.51