A Arte do Violão

Programas idealizados e apresentados por Fábio Zanon

Programa III - Andrés Segovia: Gravações 1927-1939

"O violão é como uma orquestra cujo som nos alcança vindo de um planeta que é menor e mais delicado que o nosso."
ANDRÉS SEGOVIA

BG (c.20 segundos)
Disco 2, faixa 14
Ponce - Variações s/ folia de Espanha

Há, na história da música, poucos instrumentistas que conseguem dirigir o fluxo dos acontecimentos e parecem re-definir a imagem pública e a estatura musical de seus instrumentos. O violino, o piano e o órgão estarão para sempre associados aos nomes de Paganini, Liszt e Bach, respectivamente, por terem aberto a tampa que trancava a sonoridade e as qualidades expressivas de seus instrumentos. No violão, este papel coube ao espanhol Andrés Segovia. Numa carreira que se estendeu ininterruptamente por quase 80 anos e sem ser um compositor de relevo, Segovia efetuou uma síntese daquilo que melhor se fazia em sua época e alçou os aspectos técnicos, sonoros e expressivos do instrumento a um patamar sequer imaginado por seus contemporâneos. Ele se serviu de seu prestígio ímpar para consolidar três objetivos auto-impostos, os quais, em sua visão, eram fundamentais para a aceitação do violão pelo público filarmônico (o termo usado por Segovia para definir o público de concertos sinfônicos e camerísticos): [1] levar um repertório ortodoxamente clássico, sem concessões a manifestações de caráter folclórico, a um público que extrapolasse o limite dos aficionados do violão; [2] propugnar pelo estabelecimento do curso de violão em nível de igualdade com outros instrumentos em todos os conservatórios mais importantes e estimular publicações especializadas de violão; e [3] estimular compositores a criarem um novo repertório para o instrumento. Estes objetivos foram consolidados com energia hercúlea e incomparável ambição artística e pessoal, e corooaram uma carreira inigualável onde o nome Segovia, ainda hoje, 16 anos após seu falecimento, é sinônimo de violão clássico na acepção mais elevada do termo. O extraordinário alcance da arte de Segovia é ainda mais surpreendente pelo fato dele ter, em todos os parâmetros artísticos e pessoais, adotado uma persona do século XIX: seu ideal musical era o romântico, sua presença pública a de um fidalgo, sua inclinação política e comportamental conservadora, enfim, Segovia transportava o ouvinte a uma era anterior, que havia sucumbido com a 1a Guerra Mundial.

Disco 1 - faixa 18
Malats - Serenata Española 3.45

Segovia nasceu na pequena cidade de Linares, na província de Jaén, uma região ligada à mineração e à agricultura, no sul da Espanha, em 21 de fevereiro de 1893, e faleceu aos 94 anos em Madri, em 1987.

BG - c.15 segundos
Disco 2 - faixa 1
Albéniz - Granada

Sua infância não é bem documentada, mas parece ter sido algo turbulenta. Como todo bom espanhol, Segovia foi, por toda sua vida, extremamente cauteloso ao revelar detalhes de sua vida pessoal e nunca fez de sua intimidade um espetáculo. Sua autobiografia, que nunca passou do primeiro volume, é um relato pitoresco e fantasioso de seus primeiros anos, mas praticamente não menciona seus pais, irmãos e demais familiares. Aparentemente, ainda em tenra idade, devido a tensões familiares, ele foi separado de seus irmãos e enviado a seus tios em Granada, que não tinham filhos, para que o criassem. Para consolar o garoto separado de sua família, seu tio o ensinou a tocar alguns acordes no violão. Um psicanalista teria muito a ler nas entrelinhas de seu relato e associaria sua relação obsessiva com o violão a um mecanismo compensatório para sua carência emocional. O fato é que o menino Segovia, de acordo com relatos de parentes, não parecia estar aprendendo o violão - a intimidade era tão grande que ele mais parecia estar relembrando algo que já sabia antes de nascer.

De qualquer maneira, Granada no final do séc XIX era um dos lugares mais inspiradores para qualquer estudante de violão e o garoto formou sua sensibilidade em contato com a cultura mourisca, a presença latente dos ciganos e da música flamenca e com a perfumada e misteriosa arquitetura dos monumentos granadinos, dos quais o mais magnífico é o palácio dos reis mouros, o Alhambra.

Disco 1 - faixa 19
Tarrega - Recuerdos 3.22

Segovia teve uma escolaridade irregular, parte devido ao caos familiar, parte devido ao fato de gazetear aulas para ir às covas dos ciganos para escuta-los tocar violão. Sua família, de aspirações pequeno-burguesas, castigou-o por meter com os ciganos e foi, desde o início, radicalmente contra sua decisão de tornar-se músico. Talvez daí venha a radicalismo com que, mais tarde, tentou separar o violão clássico da guitarra flamenca, que sempre tratou como uma forma de arte inferior. Ainda adolescente, rompeu com a família e decidiu morar sozinho e estudar, por conta própria, não só o violão mas também teoria e solfejo. Por ser autodidata, diria quando já famoso, nunca houve atrito entre o mestre e o aluno. Depois de sua estréia em Granada aos 15 anos, começou uma carreira local, fazendo suas estréias nas cidades vizinhas, expandindo pouco a pouco sua atividade para cidades mais distantes como Barcelona. Neste período fixou-se alternadamente em várias cidades, geralmente motivado por ligações amorosas e noivados rompidos. Em todas as viagens procurou encontrar os violonistas locais mais famosos, em parte para comparar seu desenvolvimento musical com o deles, mas também para ampliar os horizontes de seu repertório e absorver e aperfeiçoar sua arte, auxiliado, sem dúvida, pela sua imensa capacidade de observação e análise, que supriram a necessidade de um estudo regular.

A verdade é que, já aos 18 anos Segovia devia possuir poucos rivais além de Llobet e Pujol, e isto tornou-se aparente já em sua estréia em Madri, no Teatro Ateneo, em 1912. As obras que estamos ouvindo formavam a base de seu repertório neste período, e podemos somente imaginar o deslumbramento que sua técnica excepcional já provocava.

Disco 2 - faixa 2
Albéniz - Sevilla - (grav 1939) 4.17

[Comentar]. Foi também em Madri que começou a associação entre Segovia e os luthiers. Como não possuía um instrumento adequado para o recital no Ateneo, foi à casa Ramirez no intuito de alugar um instrumento de qualidade. Ao ver o rapaz tocar, Ramirez resolveu presenteá-lo com seu melhor violão, dizendo "é claro, rapaz, que não vou te alugar nenhuma guitarra, mas você pode levar esta a passear pelo mundo afora. Pague sem dinheiro."
[falar sobre os violões Manuel Ramirez]

Disco 2 - faixa 7
Granados - Dança no 10 4.12

[Comentários]. Sua estréia em Madri teve enorme repercussão e a partir daí Segovia ampliou suas atividades para toda a Espanha. Casou-se pela primeira vez, fato que ele não menciona em sua autobiografia... A um dado momento começou a trabalhar com o empresário Quesada, que já havia organizado extensas turnês para Artur Rubinstein na Espanha e, além de incrementar suas atividades em seu país, Segovia visitou também a Argentina e Uruguai no início dos anos 20, onde conheceu Agustín Barrios. Segovia agora vislumbrava uma verdadeira carreira internacional e, para obter sucesso em sua empreitada, era necessário ampliar os horizontes de seu repertório.
[Falar sobre a base do repertório]

Disco 1 - faixa 11
Sor - Variações op.9 3.28

Trancrições. O legado de Tarrega e Llobet. Respeitabilidade.

Disco 1 - faixa 17
Mendelssohn - Canzonetta 4.16

A relação de Segovia com a música de Bach. Edições de Bruger. Recepção.

Disco 1 - faixa 1
Bach - Gavotte em Rondeau 2.47

A estréia de Andrés Segovia em Paris em 1924 é um marco na carreira do andaluz e na história do violão. Até então o instrumento era visto como uma curiosidade fora dos círculos de aficionados e a carreira de Segovia ainda não se havia projetado fora da Espanha, com a exceção de ocasionais visitas à Argentina. Este recital contou com a presença de uma multidão de figuras importantes da cena musical parisiense e a surpreendente qualidade artística de Segovia transformou-o numa celebridade num golpe único.

A partir desse momento, sua carreira internacional tomou corpo e sucessivas estréias na Inglaterra, Alemanha, Bélgica, URSS, EUA e Áustria e as primeiras gravações realizadas em 1927 começaram a projetar o seu nome como o de um pioneiro musical e de um artista de qualidade indiscutível. Foram os primeiros passos da criação do mito Segovia.

Disco 1 - faixa 16
Torroba - allegretto da sonatina 3.19

Este era o momento para ele aproveitar a súbita elevação de seu perfil público e fazer contatos com os compositores mais destacados de sua época para que escrevessem obras originais para violão, uma idéia que, na época, ainda era considerada estapafúrdia
Depois da Homenaje de Falla de 1920, a obra geralmente aceita como a primeira escrita para Segovia é a Danza de 1923 (ou, segundo Segovia, de 1919), publicada como último movimento da Suíte Castellana de Moreno Torroba.
Se escrever para Segovia praticamente se tornou uma moda depois que obras de vulto foram estreadas depois de 1925, seria necessário um dom profético para se supor que uma obra escrita para o violão, antes de 1924, para um artista ainda emergente, seria tempo bem empregado. Este crédito tem de ser dado a Moreno Torroba. [comentar]

Disco 2 - faixa 3
Torroba - Fandanguillo 1.58

- Compositores espanhóis do período.

Disco 2 - faixa 6
Turina - Fandanguillo 3.57

Relação de Segovia com Ponce.

Disco 2 - faixa 12
Ponce - Mazurka 3.23

Os pastiches de Ponce.

Disco 1 - faixa 10
Ponce/Weiss - Gigue 4.38

- Início das gravações em 1927.
- Guerra civil espanhola. Saque da casa em Barcelona em 39.
- Inclinações políticas de Segovia. Carreira norte-americana. Residência em Montevidéu durante a guerra.
- Morte do filho, divórcio, casamento com Paquita Madriguera.
- Composições importantes de Ponce.

Disco 2 - faixa 11
Ponce - Poslúdio 1.54

A 2a guerra trouxe várias dificuldades de caráter pessoal para todos os artistas da época e Segovia não foi exceção. Além de muito de seu patrimônio na Espanha ter sido confiscado ou destruído e das despesas de manutenção da ex-mulher e dos filhos, sua atividade estava praticamente circunscrita às Américas e, mesmo nos EUA, sua inclinação política significou discriminação por parte alguns setores. A partir de então, ele se tornaria mais cauteloso nas declarações de caráter público, guardando ciosamente sua vida privada e opiniões políticas, controlando o conteúdo de suas entrevistas e resguardando-se sob um véu de lenda e de reminiscências romanceadas. Instintivamente ele adotou uma estratégia moderna de relações públicas que, aliada à qualidade superlativa de seus concertos e gravações a partir de 1949, contribuiu para a aura intocável de lenda viva que perdura até hoje.