Programa II - Agustin Barrios: O Paganini das Selvas do Paraguai
PROFISSÃO DE FÉ
Tupã, o Espírito Supremo e protetor de minha
raça,
Encontrou-me um dia no meio de um bosque
florescido.
E me disse: Toma esta caixa misteriosa e descobre
seus segredos.
E, aprisionando nela todos os pássaros canoros da
floresta
E a alma resignada dos vegetais, abandonou-a em
minhas mãos.
Tomei-a, obedecendo a ordem de Tupã,
Colocando-a bem junto ao coração,
Abraçado a ela passei muitas luas à borda de uma
fonte.
E, uma noite, Jaci, retratada no líquido cristal,
Sentindo a tristeza de minha alma índia,
Deu-me seis raios de prata para com eles descobrir
seus arcanos segredos.
E o milagre se operou: do fundo da caixa
misteriosa,
Brotou a sinfonia maravilhosa
De todas as vozes virgens da natureza da América
AGUSTÍN BARRIOS
Barrios - disco 1 - faixa 12
Pericón 3.55
Gravação de 1928. Da mesma forma que o broto de uma planta remove de sobre si a pedra para que possa vir à luz e florescer, Agustín Barrios é um milagre da natureza que soube enfrentar todos os obstáculos e deixar uma marca perene na história do violão, da música e de seu país. Nascido em 1885 num Paraguai destroçado por uma guerra desigual e sangrenta, onde a herança cultural havia voltado à estaca zero e onde a prática da música culta era praticamente inexistente, ele conseguiu, à força de um talento excepcional e de uma genuína ilusão artística, tornar-se um dos compositores mais significativos da história do instrumento e um violonista de recursos extraordinários.
Barrios foi um dos oito filhos de uma família de pendores artísticos. Começou a estudar música muito cedo e seu primeiro professor foi Gustavo Sosa Escalada, que o instruiu nos clássicos Sor, Tarrega e Aguado. Aos 13 anos, Agustín já era reconhecido como um prodígio e ganhou uma bolsa para o colégio Nacional em Assunção. Ao terminar seus estudos, embarcou numa carreira musical e, em 1910, aos 25 anos, na Argentina, realizou suas primeiras gravações.
Barrios - disco 3 - faixa 8
C.A. Silva: San Lorenzo (marcha) 3.06
Gravação sem data, provavelmente realizada antes de 1913. [comentar a gravação: dificuldades da gravação em cilindro de cera, caráter marcial, etc.] Nesse período, Barrios deve ter conhecido e talvez até estudado com Gimenez Manjón, o célebre violonista espanhol cego, e talvez com Miguel Llobet. Após breves períodos em Buenos Aires e Montevidéu, em 1916 encontramos Barrios no Brasil, onde permaneceu por seis anos e gozou de sucesso sem precedentes. Sua obra favorita para encerramento dos concertos é a Jota Aragonesa. Sendo uma obra que nos dá um retrato bastante fiel da eletrizante experiência de um recital de Barrios, vamos escutá-la apesar da baixa qualidade de reprodução.
Barrios - disco 2 - faixa 3
Jota 5.35
Hoje, numa época em que os recitais de violão podem ser encarados como uma parte integral da vida de concertos, onde há um repertório e um público formados, é difícil imaginar as dificuldades que se impuseram para Barrios apresentar um concerto desta natureza. Um paraguaio descendente de índios, tocando um instrumento de reputação duvidosa, associado à malandragem, e ao qual não se atribuía a capacidade de sustentar um argumento musical. Sabe-se que Barrios conheceu Villa-Lobos e se encontrou com os chorões cariocas, que estavam no auge de popularidade na década de 1910, e chegou a conhecer João Pernambuco e dizer que ninguém improvisava como ele. Depois de um retorno decepcionante ao Paraguai, Barrios decidiu retornar ao Brasil, cenário de seus maiores êxitos, e aqui residiu até 1932. Foi um período que marcou época na história do violão, durante o qual Barrios compôs grande parte de suas melhores obras.
Barrios - disco1 - faixa 18
Valsa no 4 3.13
Gravação de 1928 [comentar, com exemplos]. A vida romântica de artista boêmio, embriagado de sua arte e em comunhão com seu público é um retrato bem preciso do rumo que Barrios escolheu para sua vida neste período maduro de sua arte. Ele visitou todos os 21 estados brasileiros, tocando em toda e qualquer cidade de qualquer tamanho e sem conhecimento prévio do nível de cultura musical que haveria de encontrar. Há uma estória deliciosa que me foi contada pelo grande violonista Marcelo Kayath. Nos anos 80, Marcelo esteve no estado do Pará para uma série de concertos promovidos pela secretaria estadual de cultura, que incluíam não só Belém, mas várias cidades do interior, algumas das quais de acesso difícil. Uma dessas cidades, à qual somente se podia chegar depois de uma viagem de avião e de algumas horas por barco ou estrada de terra, era na verdade era um povoado, um par de ruas sem pavimentação, com uma igreja e um pequeno colégio onde o recital se realizou. Marcelo pensou que deveria ser o primeiro violonista clássico a se apresentar no local. Ao final do concerto, um senhor já bastante idoso lhe disse que esse não era o caso, pois ele tinha escutado o grande Agustín Barrios tocar no mesmo local ainda nos anos 30.
Barrios - disco 1 - faixa 5
Danza paraguaia 3.05
Gravação Odeon de 1928. Este era um artista que literalmente ia aonde o povo estava. A partir de 1930, Barrios decidiu-se por uma completa maquiagem publicitária, assumindo suas raízes indígenas e anunciando seus concertos como "O Paganini das selvas paraguaias, cacique Nitsuga Mangoré", apresentando-se e divulgando fotos publicitárias onde vemos um figurino indígena completo, de tanga e cocar! Com o novo formato, Barrios levou seu espetáculo a praticamente todos os países da América Latina. Às vésperas da 2a Guerra, visitou brevemente a Bélgica, Espanha e Alemanha e, ao voltar à Costa Rica, sofreu um infarto que encerrou qualquer sonho de conquistar os EUA. Sem saúde para continuar com a vida boêmia, Barrios se fixou em El Salvador, onde ensinou no conservatório superior e onde faleceu, em 1944. Em condições tão romanticamente precárias, qual seria o repertório de que Barrios dispunha? O violão ainda não havia incorporado o repertório do alaúde, a arte da transcrição ainda estava em seus primórdios e artistas como Tarrega, Llobet ou o jovem Segovia elaboravam um pot-pourri de transcrições românticas, de obras de sua própria autoria e de peças curtas dos compositores-violonistas do séc XIX como Sor, Coste ou Aguado. O acesso a obras novas ainda era limitado, e compositores mais sérios só começaram a escrever música em meados dos anos 20. Barrios solucionou o problema da maneira mais prática, compondo música em todos os estilos. Podemos compartimentalizar a produção de Barrios como compositor, de quase uma centena de peças curtas, em 4 categorias: a primeira é a das obras inspiradas no folclore e nas danças locais, como o Pericón e a Danza Paraguaia que já ouvimos. Uma de suas melhores gravações nessa veia é a de
Barrios - disco 3 - faixa 15
Caazapá - aire popular paraguaio 2.58
Na verdade, um arranjo admirável de uma canção folclórica. A segunda é a categoria de pastiches de música antiga, minuetos, gavotas e árias onde ele "imita" o estilo de compositores como Bach ou Mozart, ou das danças espanholas como a Jota que ouvimos no início do Programa, e preenche uma desconfortável lacuna no repertório de sua época. A esta categoria pertence uma de suas obras mais conhecidas, La Catedral, que sugere a intensidade de uma experiência pessoal. Barrios, certa vez em Montevidéu, foi visitar a Catedral de San José, onde um organista estava estudando um coral de Bach. Aquela música solene transportou o compositor a uma dimensão de íntima espiritualidade. Após esta epifania, o homem transfigurado se ressente do contraste com o burburinho prosaico, a agitação e a futilidade da vida terrena quando volta à rua. A dualidade entre o religioso e o profano é representada pelas duas partes contrastantes, Prelúdio e Allegro Solenne
Barrios - disco 1 - faixa 16
La Catedral 4.32
A terceira categoria é a das peças características de inspiração romântica, talvez onde encontramos o genuíno Barrios. É o Barrios boêmio e arrojado, que recitava de memória trechos de Don Quixote e das Mil e uma Noites, o Barrios mestre da caligrafia, o Barrios autor de vários poemas, o Barrios que desenhava com perfeição os retratos das jovens mais belas, o Barrios que falava várias línguas, o homem profunda e ingenuamente religioso, enfim o poeta do violão, na tradição do intelectual de feira popular que ainda é tão presente na América Latina e cujas reverberações ainda podemos presenciar na arte de um Antônio Nóbrega. São obras de temática variada, algumas com temas sentimentais, outras com temas religiosos, históricos ou evocativos, e cada uma de inspiração soberba.
Barrios - disco 1 - faixa 13
Confesión - romanza 3.25
[Comentar a técnica: cordas de aço, peso do braço na
linha de baixos, toque lateral que pode ter
influenciado Segovia, com exemplos]
A quarta categoria é a de obras de caráter
técnico/didático, estudos de concerto, ora intricados e
extenuantes, ora poéticos e evocativos, um misto de
exercício e peça característica. Uma de suas
especialidades era o efeito de tremolo [descrever e
exemplificar]. Ele deixou várias obras nesse estilo, e
ouvindo Contemplación logo percebemos por quê.
Barrios - disco 1 - faixa 11
Contemplación 4.06
Energia e eloqüência, temperados com um sentimento puro e idealista, realmente uma interpretação vinda do fundo do coração. Embora muitas vezes as gravações demonstrem uma expressão descontrolada e excessivamente açucarada para ouvidos modernos, só podemos admirar a extraordinária imaginação de seu fraseado. Ouçamos por exemplo a bela Valsa no 3, onde a figura recorrente é pronunciada com uma inflexão diferente a cada repetição, algumas vezes mais lenta e melancólica, outras rápida e nervosa, outras mais pausada e digna, sempre mantendo sequinho o ritmo da valsa e uma atmosfera de profundo dissabor. A seção central é pura magia e leveza, uma verdadeira dança de fadas e uma das mais belas gravações da história
Barrios - disco 1 - faixa 15
Valsa no 3 3.29
Apesar da imagem de saltimbanco que temos de Barrios, ele também sabia ser artista sério. Foi o primeiro violonista da história a tocar uma suíte para alaúde de Bach completa e, no final da carreira, incorporou obras de Turina, Albéniz e Granados a seu repertório. Mas os arranjos de clássicos de bolso e de temas populares foram a segredo de seu sucesso. A famoso minueto de Beethoven, por exemplo, é tocado com uma languidez totalmente apropriada e um especial cuidado nas terminações de frase que praticamente não se escuta em interpretações modernas.
Barrios - disco 3 - faixa 13
Beethoven: Minueto 2.32
Barrios não fez escola. Segovia certamente aprendeu algo ao encontrar-se com Barrios, mas cuidadosamente evitou falar do colega e rival, ativamente impediu sua carreira na Europa e dizia que Barrios era "um compositor fraco". Sua música nunca deixou de ser tocada na América Latina. Na Europa e EUA, entretanto, Barrios era somente um nome obscuro para especialistas, até que o violonista australiano John Williams gravou, em 1978, um LP totalmente dedicado a Barrios, um estrondoso sucesso.
Latin American guitar music -
John Williams - Faixa 12
Barrios: Maxixa 2.44
Barrios - disco 1 - faixa 8
Maxixe 2.33
A partir daí, sua importância como o elo perdido do violão romântico foi re-avaliada e sua música começou a ser publicada, uma tarefa difícil pois o estilo de vida de Barrios fez com que tivesse várias cópias de suas obras, com textos incongruentes, distribuídas a amigos e escritas em mesas de bar; muitas delas só existem em gravação, outras têm de ser buscadas em coleções particulares. Nosso conhecimento sobre Barrios está somente começando.
Barrios - disco 3 - faixa 17
Levino Albano da Conceição: Tarantela 2.49

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